Sarcófagos, lápides, estelas e urnas funerárias

Por Marcelo Albuquerque

A arte tumular romana deve muito às tradições etruscas e helenísticas, principalmente. Dos etruscos, os romanos herdaram a tradição de retratar os esposos reclinados sobre o triclínio, como vemos no Túmulo dos Esposos, na Villa Giulia (ver Terracota etrusca e Museu de Villa Giulia). O costume de enterrar os mortos, em especial os mortos mais abastados, cujos sarcófagos foram preservados, envolvia um ritual com uso de caixões e sarcófagos que podiam receber ricos relevos escultóricos. Durante o período republicano até o início do Império, a forma mais popular de enterro foi a cremação e depósito das cinzas em urnas, porém existem poucos exemplos de sarcófagos requintados desse período, como o sarcófago de Lucio Cornelio Scipione Barbato, pertencente ao Museu Pio-Clementino no Vaticano, com feições austeras e helênicas.

Durante o império, a forma suntuosa de sarcófagos possuía painéis adornados como baixos-relevos e elementos iconográficos e ornamentais, como guirlandas e bucrânios (esculturas e relevos de crânios de bois descarnados, relacionados aos sacrifícios desses animais). Durante os governos de Trajano e Adriano, o enterro dos mortos passa a ser cada vez mais frequente devido o contato com o Mediterrâneo Oriental e Ásia Menor, regiões que possuíam uma série de crenças religiosas pagãs que pregavam a imortalidade da alma vinculada ao cuidado e preservação do corpo visando o renascimento em uma vida futura[1]. Os sarcófagos latinos possuem um lado longo e os dois curtos, enquanto os gregos e orientais costumavam ser decorados nos quatro lados. No Oriente, os sarcófagos eram instalados no centro da câmara mortuária, enquanto em Roma podiam se alinhar ao longo das paredes de uma sala. Entre os temas mais populares de relevos durante o período imperial estavam os dedicados à Dionísio, ou Baco. Nos tempos do imperador Cômodo, os sarcófagos alcançaram requintes plásticos complexos e, posteriormente, incorporam temas de caças, virilidade militar e qualidades filosóficas de seus representados falecidos. O Cristianismo desenvolve uma iconografia própria, com sarcófagos decorados com temas judaico-cristãos, como as populares figuras do Bom Pastor e cenas do Antigo e Novo Testamentos. A imagem de Cristo, nesse período, representa Jesus jovem, adolescente e puro, como no emblemático sarcófago de Junius Basso (ver Arte Paleocristã: catacumbas).

O Monumento Funerário kline, do século I, nos Museus das Termas de Diocleciano, retrata um homem deitado em um triclínio, segundo tradições etruscas, vestido de toga, acompanhado de um busto de sua esposa, um tipo de meta-escultura, ou seja, uma representação escultórica de outra escultura. Kline significa uma cama de casal quadrada com bronze, coberta com tecidos e almofadas. Esse tipo de representação funerária será mais comum na época imperial.

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Monumento funerário kline. Mármore di Luni. Século I. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Túmulos em exposição no Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Dioniso era tradicionalmente representado na forma de um jovem sem barbas, longa cabeleira, alegre e festivo. O deus era frequentemente retratado com os seus seguidores na cerâmica grega, especialmente nas crateras e kylix para vinho. Carregava em uma das mãos um cacho de uvas ou uma taça, e na outra um dardo ornamentado de folhagens e fitas. Podia ter o corpo coberto com um manto de pele de leão ou de leopardo, conduzindo uma carruagem puxada por leões. Também pode ser representado embriagado sentado sobre um tonel de vinho, com uma taça na mão a transbordar de vinho.

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Dionísio. Era Adriana (117-138 d.C.). Atribuído a Praxíteles em 350 a.C. Galeria Borghese. Mármore di Luni. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Os relevos escultóricos normalmente o mostram na companhia de outros personagens que desfrutam do fruto da videira. Sileno, seu professor sempre presente, conhecido pelo consumo de vinho, lhe transmitiu o plantio da vinha e a fabricação do vinho, figurando nos hinos órficos[2]. No mundo pastoral dionisíaco helenístico figuram criaturas semi-divinas do universo rural, como o deus Pan, sátiros, centauros, ninfas e ménades (mulheres humanas entorpecidas e por vezes violentas, como na tragédia de Eurípedes, As Bacantes) que acompanham o deus, bebendo vinho, tocando flautas e tomando parte em danças e investidas amorosas. Durante o período helenístico, as grandes esculturas de Dionísio se tornaram comuns, apresentando-o como um jovem de feições andróginas, e entre os mais famosos exemplares de esculturas romanas incluem o Fauno Barberini e o Hermafrodita Dormido.

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Sarcófago com representação de Dionísio revelando Ariadne com cenas dionisíacas, da Via Appia. Século II. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Sarcófago com Dionísio, Ariadne e centauros em procissão cerimonial e banquete. Século II, Roma. Mármore de Luni. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Termas de Caracala

Por Marcelo Albuquerque

As Termas de Caracala constituem uma das maiores ruínas de termas imperiais de Roma ainda preservadas e abertas à visitação, comparada apenas em grandeza e opulência às Termas de Diocleciano. Se situam sobre uma extremidade da colina do Aventino, no trecho inicial da Via Appia, construídas entre 212 e 216 d.C. Acredita-se que pode ter sido iniciada em 206 por Sétimo Severo, seu pai e fundador da dinastia. Sucessores, como Heliogábalo (218-222) e Alexandre Severo (222-235) continuaram sua construção e ornamentação. O complexo era abastecimento por uma ramificação do aqueduto Acqua Marcia, conhecido como Aqua Antoniniana, que cruzou a Via Appia pelo Arco de Druso (ver Aquedutos e pontes).

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Ruínas das Termas de Caracala, vista do exterior. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A planta das Termas de Caracala é inspirada no modelo das Termas de Trajano no Esquilino, com um amplo desenho quadrangular abrigando toda uma infinidade de serviços, atingindo aproximadamente 400 metros de largura. No apodyterium se preservam antigos mosaicos. Importantes obras de arte foram descobertas no local durante escavações, especialmente no século XVI, como as esculturas de Farnese (o Touro, a Flora e Hércules, propriedades do Museu Arqueológico Nacional de Nápoles) e o mosaico com vinte e oito figuras de atletas, descoberto em 1824, pertencente aos Museus do Vaticano.

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Planta das Termas de Caracala. Fonte: Wikipedia. https://fr.wikipedia.org/wiki/Thermes_de_Caracalla. Acesso em: 12 set. 2016.

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Termas de Trajano

Por Marcelo Albuquerque

As Termas de Tito e as Termas de Trajano localizam-se nas encostas do Esquilino, sendo um dos mais antigos exemplos de termas e banhos romanos da era imperial. Foram concebidas como adaptações para o uso público das casas de banho privadas de Domus Aurea de Nero, seguindo o projeto imperial de Vespasiano de devolver ao povo os espaços urbanos apropriados por Nero, sendo o Coliseu o grande edifício que simboliza essa transição. As ruínas são poucas e podem ser apreciadas em um passeio pela Viale del Monte Oppio, que conecta o Coliseu ao coração do Esquilino.

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Planta das Termas de Trajano. Fonte: Wikipedia. https://fr.wikipedia.org/wiki/Thermes_de_Trajan. Acesso em: 12 set. 2016.

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Termas de Trajano, visto a partir do Norte, segundo o
Modelo de Gismondi. Fonte: Wikipedia. https://fr.wikipedia.org/wiki/Thermes_de_Trajan. Acesso em: 12 set. 2016.

As Termas de Trajano foram erguidas ocupando construções anteriores, como a Domus Aurea e as Termas de Tito. O arquiteto foi Apolodoro de Damasco, o mesmo construtor dos Mercados de Trajano. Elas estão dispostas em um eixo norte-sul, girado em 36° em relação ao norte, de forma a aproveitar a luz e o calor solar.

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Ruínas das termas de Trajano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Termas de Diocleciano

Por Marcelo Albuquerque

As Termas de Diocleciano são as maiores da Roma Antiga, iniciadas em 298 pelo imperador Augusto Maximiliano, nomeado pelo imperador César Diocleciano, no contexto da tetrarquia romana (ver Tetrarquia), sendo inaugurado em 306. Atualmente se situa na Praça da República, Piazza dei Cinquecento e na Via XX Settembre, abrigando parte do complexo do Museu Nacional Romano e da Basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires. Os banhos atendiam as regiões populosas das colinas do Quirinal, Viminal e Esquilino. O complexo é muito semelhante às Termas de Caracala, que por sua vez foi inspirada nas Termas de Trajano.

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Termas de Diocleciano vista da Praça da República. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Maquete das Termas de Diocleciano e a Praça da República, de formato semicircular, de cor branca. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Para a sua construção, foram demolidas diversas casas e edifícios da região, sendo que algumas foram escavadas na Praça da República durante a ampliação do metrô. Fellini, no filme Roma, de 1972, apresenta, de forma majestosa, sua visão do encontro dos arqueólogos com afrescos antigos, durante as escavações do metrô, como podemos ver no link a seguir:

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Cortile (palestra) do Museu dos Banhos das Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Museu dos Banhos das Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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O arco e as abóbadas romanas

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Por Marcelo Albuquerque

Dentre as maiores contribuições da arquitetura, engenharia e estética romana estão o aperfeiçoamento e a utilização dos arcos em larga escala, sendo uma das formas mais influentes na civilização ocidental. Os arcos são, primeiramente, belos e simples; e a multiplicação de suas formas possibilitou rearranjos estéticos sem precedentes na arquitetura, como vemos nas abóbadas, cilindros e cúpulas. Além disso, os arcos permitem uma melhor distribuição do peso e maiores vãos, comparados ao sistema de pilares/colunas e arquitraves gregas. O arco romano funciona através de um sistema de distribuição de cargas que convergem das aduelas para os pilares, travado pela colocação final de uma pedra-chave no meio do vão. Os arcos reduzem os custos de construção por permitirem maiores vãos e menos materiais, além de serem facilmente replicados através das formas de madeira. Sobre a imposta, uma pequena extremidade em balanço, era colocada a forma de madeira que permitia o assentamento das aduelas e da chave do arco.

O arco romano, associado ao concreto pozolana (opus caementicium), foi um dos principais elementos arquitetônicos e de engenharia que contribuíram para o desenvolvimento das edificações e sua monumentalidade. Os arcos e as abóbadas poderiam ser também moldados em concreto e revestidos com alvenaria de tijolos.

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Fórum de César no Fórum Romano, onde vê-se as ruínas de arcadas de concreto e alvenaria. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Fórum de César no Fórum Romano, onde vê-se as ruínas de arcadas em concreto. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Veja mais:

A cidade etrusca

Anfiteatros

Aquedutos e pontes

Basílicas

Coliseu

Teatro romano

Termas de Diocleciano

Roma: vídeos

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