Renascimento: panorama

Por Marcelo Albuquerque

A arte e a arquitetura renascentista foram desenvolvidas ao longo dos séculos XV e XVI, apresentando um rompimento com as tradições medievais, porém não totalmente separados dos costumes e valores medievos, mas com um consciente rompimento com a estética gótica. São inseridas novas relações entre a arte e arquitetura, promovendo a imagem dos personagens como profissionais liberais, portadores de uma erudição à altura dos grandes gênios da história.  Esses personagens são orientados na compreensão e valorização das linguagens da Antiguidade Clássica sem, no entanto, fazer apenas cópias dos modelos antigos. O século XV eleva as figuras de Filippo Brunelleschi, Masaccio, Donatello e Alberti, que definem os princípios de uma arte e arquitetura classicistas, através de tratados, com maior naturalismo na pintura, idealismo e desenvolvimento da perspectiva, aliados às grandes descobertas empreendidas pelo globo terrestre.

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Mapa da Europa em 1500. Fonte: https://www.ime.usp.br/~tycho/participants/psousa/cursos/materiais/mapas_historicos.html. Acesso em: 21 abr 2018.

Observaremos que, para muitos autores, a origem do Renascimento é apontada na construção do domo da Catedral de Santa Maria del Fiore por Brunelleschi, em Florença. Posteriormente, Leonardo Da Vinci se tornará, certamente, um dos personagens mais famosos e populares desse período. O início do século XVI apresenta o desenvolvimento e maturidade do Renascimento, tendo como ícones Bramante e Rafael e Michelangelo, junto aos personagens das escolas coloristas de Veneza, como Ticiano. Nesse instante, o Renascimento abre caminho para o Maneirismo. Se destacam arquitetos como Andrea Palladio, o próprio Michelangelo e Giulio Romano. Considera-se que o Maneirismo seja dotado de pensamentos anticlássicos que reformulam as normas da linguagem clássica, ao mesmo tempo em que a glorifica, conferindo uma grande autonomia criativa. O Maneirismo costuma ser visto como uma dinâmica atrelada ao Renascimento, porém reivindicando um novo modelo “à maneira” clássica. O Renascimento também se caracteriza pela propagação das ideias italianas pela Europa, considerando um Renascimento distinto em diversas regiões do subcontinente europeu, como o Renascimento espanhol, o francês, o flamengo e o britânico, entre outros.

O Renascimento desenvolve-se na Itália do final da Idade Média, a partir de Florença, no século XV, marcando o início da era moderna, estendendo-se até o século XVI. Ele é oriundo dos desenvolvimentos do século XIII e XIV, conhecidos como Duecento e Trecento. Renova-se um interesse pelos estudos clássicos da filosofia, literatura e artes, contextualizando-os na sua contemporaneidade. Não significa que a Idade Média havia abandonado estes estudos, pelo contrário, na realidade, havia-se conservado muito da tradição clássica pelos eruditos católicos, pelos mosteiros e pelas universidades em geral. As valiosas contribuições orientais, através dos árabes e dos eruditos gregos e bizantinos refugiados da recém conquistada Constantinopla, pelos turcos otomanos, inundaram a Europa Ocidental de conhecimentos e referências da Antiguidade e da produção intelectual do período medieval. Porém, durante a Idade Média, a Europa passou por alguns momentos de “renascimentos” da cultura clássica, como o empreendido no período carolíngio, no Otoniano, e pela filosofia escolástica, mas nenhuma com as características do Renascimento italiano do século XV. Sendo assim, o ano de 1453, data da conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos, pondo fim ao Império Bizantino, marca o encerramento da Idade Média e início do Renascimento. O período é marcado pelo surgimento e consolidação de estados modernos, como as monarquias nacionais da França, Inglaterra e Espanha, sendo que esta última expulsa de vez os árabes da península Ibérica e patrocina as viagens dos descobrimentos ao lado dos portugueses. A descoberta do Novo Mundo promove uma nova ordem econômica e social, deslocando consideravelmente o eixo comercial do Mediterrâneo para o Atlântico, advindas das expansões coloniais, fomentando a economia mercantilista.

O termo “renascimento ” foi usado por Giorgio Vasari, em 1550, em seu tratado Vidas dos melhores arquitetos, pintores, escultores italianos de Cimabue até à nossa época, para indicar um ciclo que, a partir de Giotto, se estabeleceria com Masaccio, Donatello e Brunelleschi no rompimento com a estética bizantina e retorno para a romana.  Para Vasari, o renascimento culmina em Leonardo e Michelangelo, capazes de superar os próprios antigos. O termo “Renaissance” se define como resultado da historiografia do século XIX, descrita por Jules Michelet e Jacob Burckhardt.

Na filosofia, o ressurgimento do neoplatonismo e do hermetismo[1] será fundamental para este florescimento das expressões artísticas renovadas no interesse na Antiguidade. A partir dessas referências, desenvolve-se um ambiente na cidade de Florença, em especial, para as ideias de humanismo, nascido da literatura do século XIV, com renovado interesse em estudos clássicos, especialmente por Boccaccio, Dante Alighieri e Francesco Petrarca. Estes autores foram responsáveis por entender uma nova mentalidade emergente, diferente do período que corresponde ao que chamamos de medieval, situado entre seu tempo e o Império Romano do Ocidente.

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Panorama de Florença a partir da Piazzale Michelangelo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

No campo religioso, além da medieval disputa entre cristãos e muçulmanos, a partir do século VII, e do cisma entre católicos e ortodoxos em 1054, a Reforma Protestante promove um novo cisma dentro da Igreja Católica e no Ocidente, abrindo caminho para as novas correntes protestantes, como a Calvinista e a Luterana. A reforma propunha uma renovação da cristandade e da própria Igreja Romana em si, marcada pelas denúncias de corrupção, extravagancias, decadência e divergências ideológicas e políticas complexas.

Tratados matemáticos gregos foram traduzidos no século XVI, influenciando os estudos de astronomia de Nicolau Copérnico e Kepler, e, posteriormente, no período barroco, os estudos de Galileo. A geografia foi transformada por novas informações científicas e pelas grandes navegações. Entretanto, nada disso seria possível sem a invenção da prensa de Gutenberg, no século XV, revolucionando o fluxo do conhecimento e a difusão de informações, aumentando o número de livros em circulação.

Sobre as fortificações das cidades renascentistas, vale o exemplo de cidades como Lucca. Os avanços no uso da pólvora revolucionaram as táticas militares entre 1450 e 1550, introduzindo a artilharia no campo de batalha, inutilizando os sistemas medievais de muralhas de castelos e cidades, que tiveram que se readequar à novidade, culminando nos desenhos das muralhas Vauban do século XVI.

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Muralhas Renascentistas de Lucca. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

[1] O Hermetismo se baseia no Caibalion (tradição ou transmissão), uma compilação comentada anônima do Corpus Hermeticus e Tábua de Esmeraldas.  Baseia-se nas Sete leis herméticas aplicadas ao homem e ao universo. O deus Thoth e Ibis transformados em Hermes Trismegistus, “três vezes sábio”, o que leva os conhecimentos divinos ao homem. Se relaciona com o Livro dos Mortos egípcio, compilação de vários papiros de escribas. Acredita-se que Hermes Trismegistus seja um nome genérico, relacionado à vários personagens históricos. Os Mistérios herméticos são conhecimentos passados apenas para virtuosos, nos ambientes iniciáticos da Antiguidade. Marcilio Ficcino lidera em Florença a Academia Platônica Florentina, que estuda o Hermetismo, e o Domo de Siena apresenta uma figura de Hermes Trismegistus, evidenciando uma relação medieval entre essa figura e conhecimentos eruditos do Catolicismo, porém será considerado herético posteriormente (gnose).

Panorama da Idade Média

Por Marcelo Albuquerque

 

A Idade Média compreende aproximadamente mil anos, situada entre o declínio do Império Romano do Ocidente, em 476, e o Renascimento na Europa. A era medieval possui diversos estilos e períodos artísticos e arquitetônicos, incluindo o bizantino, os estilos bárbaros, o islâmico, o românico e o gótico. É no período medieval que o cristianismo se unifica na Europa, reverberando nas obras de arte e arquitetura do mundo ocidental, promovendo uma mudança substancial na própria forma e organização das cidades.

 

A Idade Média é multifacetada e fascinante, sendo erroneamente depreciada por razões históricas e ideológicas. As sofisticadas culturas medievais contradizem o senso comum de uma “Idade das Trevas”, como costuma-se ouvir.  Certamente o extenso período medieval possui muitas épocas obscuras de ignorância e violência, como foi em todas as eras históricas e continua sendo, porém, as numerosas e espetaculares obras de arquitetura, de escultura, de pintura e de têxteis nos apresentam outras histórias de riquezas e conhecimentos. O período inclui gigantescas conquistas culturais e científicas, vistas nos monumentos bizantinos, como a igreja de Hagia Sophia, em Constantinopla, nos mosaicos de Ravenna, nas iluminuras dos monges católicos e nos evangeliários, saltérios, cópias e traduções dos textos clássicos[1]. A arquitetura românica, como a catedral de Santiago de Compostela, na Espanha, e as imensas e iluminadas catedrais góticas de Paris, Amiens e Reims exibem magníficas esculturas nas fachadas, vitrais, relicários e retábulos, tornando-se paradigmas da história da arte e da arquitetura.

 

A data mais difundida da queda do Império Romano do Ocidente e início da Idade Média foi 476 d.C., definida por Edward Gibbon (1737-1794). Nos séculos VI, VII e VIII ocorreu a primeira Idade Média, ou Alta Idade Média, caracterizada pela fusão dos romanos com os bárbaros, mantendo-se em maior ou menor grau os princípios artísticos e arquitetônicos romanos. Entre os séculos IX e XII ocorreu a cristalização do Feudalismo ou Sistema senhorial, além da Unificação cristã da Europa. O Império Bizantino, que é o Império Romano do Oriente, se estendeu até 1453. Existem diferentes Idades Médias de acordo com o lugar. A mais popular é a estrutura medieval francesa. Os séculos XII e XIII, na Baixa Idade Média, se definem como a era das catedrais e do renascimento urbano; é a imagem medieval mais popular, com mais registros e fontes primárias. De forma ampla e geral, podemos dividir a história da arte e da arquitetura da Idade Média, no mundo ocidental, da seguinte forma: Arte/arquitetura Bizantina, Arte/arquitetura Bárbara, Arte/arquitetura Islâmica, Arte/arquitetura Românica, Arte/arquitetura Gótica.

 

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Basílica de Santa Croce, Florença, Itália. Exemplo do gótico italiano, iniciada em 1294. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

A Idade Média é erroneamente e injustamente conhecida como a “Idade das trevas”. Por motivos ideológicos e históricos, o período medieval é visto como uma era obscura e de atrasos, mas que é, pelo contrário, uma época de profundos avanços e conhecimentos. A história do pensamento ocidental é diversa e isto deve ser levado em consideração, já que a arte e a arquitetura também se manifestam através das diversas tradições do pensamento. Segundo Reale (REALE; ANTISERE, 2003), a Idade Média foi uma época de grande civilização, percorrida por fermentos e frêmitos de vários tipos, quase que totalmente desconhecidos pelos historiadores do Oitocentos. Portanto, o “renascimento”, que constitui a peculiaridade da “renascença”, não é o renascimento da civilização contra a incivilização, da cultura contra a incultura e a barbárie, do saber contra a ignorância: ele é muito mais o nascimento de outra civilização, de outra cultura, de outro saber.

 

A importância da unificação monoteísta cristã nos territórios antes ocupado pelo Império Romano (Europa, África e Ásia) e nos demais territórios europeus por onde o cristianismo se expandiu, para além das antigas fronteiras romanas, foi fundamental para aquilo que diversos autores apontam como os fundamentos da civilização ocidental, sustentada pela filosofia grega, pelo direito romano e pela moral judaico-cristã. A crença em um único Deus, substituindo progressivamente as inúmeras crenças pagãs animistas, contribui para não só a unificação espiritual como para outros aspectos culturais e legais. Religiões diferentes possuem visões naturais e sobrenaturais diversas, que explicam as origens dos homens de formas variadas e como estes homens devem se comportar de acordo com códigos morais e sociais específicos. Um deus mais poderoso poderia subjugar um deus menos poderoso, assim como seus seguidores humanos. Um único Deus implicaria uma criação única, acima de todos os homens de todos os lugares. Teoricamente, nenhum grupo ou pessoa seria mais importante que outra aos olhos do Criador. Um Deus único também possibilita códigos morais e sociais unificados, mesmo entre povos e culturas bem diversificados. A percepção de vida e morte, por exemplo, em matar uma pessoa, sua licitude ou não, variava consideravelmente entre as culturas pagãs da Antiguidade. Sacrifícios humanos de caráter religioso eram praticados em culturas ditas bárbaras, como nas culturas escandinavas vikings, até serem progressivamente suprimidas com a adesão desses povos ao cristianismo. Dessa forma, o cristianismo consolida não apenas uma religião, mas todo um conjunto de regras morais, filosóficas, sociais, pedagógicas e jurídicas, estabelecendo novos paradigmas civilizacionais dos quais somos herdeiros diretos.

 

A hegemonia da Igreja Católica na Europa foi crescendo gradualmente, durante os séculos, consolidando-se na Baixa Idade Média, no período românico e gótico. A Igreja Católica combateu e disputou espaço com doutrinas e religiões que também geraram enormes conflitos e guerras, como as religiões e doutrinas pagãs greco-romanas, as doutrinas cristãs não católicas, chamadas de heréticas, como o arianismo, o catarismo e o gnosticismo. Também disputou espaço e combateu a expansão do Islã em territórios do Império Romano Ocidental e Oriental, além do paganismo de origem bárbara (céltica, viking, etc.). Figuras como Santo Agostinho, Boécio e Martianus Capella promovem a integração do cristianismo com a filosofia grega, formando os alicerces da teologia cristã, dividida em dois momentos essenciais: a filosofia Patrística, cujo maior representante foi Santo Agostinho, no fim da Antiguidade Tardia e início da Alta Idade Média, e a filosofia Escolástica, cujo maior representante foi Santo Tomás de Aquino, que viveu no século XIII. Na Escolástica, consolida-se os estudos as Artes Liberais e Artes Mecânicas dentro do contexto da educação medieval, que se vincula ao pensamento filosófico do período, oriunda da filosofia grega antiga e transmitida pelos antigos romanos. Os tratadistas, arquitetos e artistas do Renascimento, como Alberti, Brunelleschi e Leonardo, nos séculos XV e XVI, enriquecerão e modificarão a concepção das Artes Liberais e Artes Mecânicas, de forma a elevar a arquitetura, pintura e escultura ao nível de Artes Liberais.

 

As grandes contribuições institucionais e arquitetônicas do período medieval compreendem as escolas, as bibliotecas, as abadias e as universidades, remodelando as cidades e os sistemas de ensino da Antiguidade. Hospitais e asilos propiciaram a valorização dos doentes, inválidos, deficientes e fracos, de acordo com a virtude cristã da caridade (caritas).  Além disso, a dignificação da mulher e da maternidade foi reconcebida através das santas católicas e do culto Mariano, por exemplo. O culto Mariano foi responsável pela edificação de várias catedrais, como as consagradas à Notre-Dame (Nossa Senhora), entre outras, no contexto da hiperdulia, que abrange a veneração especial à figura de Nossa Senhora, expandindo os locais, rotas de peregrinação e procissões, alterando, consequentemente, as construções, cidades e rotas comerciais. No período da Baixa Idade Média, foi retomado gradualmente o comércio com o Oriente, dentro do contexto das Cruzadas.  O sistema bancário foi expandido através da Ordem dos Templários e, posteriormente, com banqueiros italianos, entre outros, contribuindo para o florescimento tecnológico e humanístico que viria a acontecer nas grandes navegações do Renascimento.

 

Em relação aos hospitais, segundo Mumford (1998), em A cidade na História, desde a Grécia Antiga eram comuns os sanatórios, locais de tratamento para enfermos e para repouso, como a ilha de Cós. Em 370 funda-se o primeiro hospital em Cesaréa, em Israel. Entre 370 a 379, Basílio, o Grande (São Basílio Magno), institui como norma a criação de hospitais como “sistemas sanitários”, sendo o hospital de Roma a referência. Multiplicam-se os hospitais mantidos pela caridade nos primeiros séculos da era cristã, juntamente com as numerosas ordens religiosas associadas, que sobreviveram por mais de 1500 anos. O último imperador do Império Romano do Ocidente, Romulo Augusto, cria por édito, entre 475 a 476, as “xenodoquias” (do grego xenos – estrangeiro, e dochion – alojamento) para hospedagem dos forasteiros e participantes das típicas vias de peregrinação dessa época. Em 650-656 foi concebido o Hotel-Dieu em Paris, sob a direção do Bispo de São Landry. No século XV iniciou-se o processo de separação do hospital medieval em duas instituições distintas: o hospital sensu stricto para o cuidado dos pacientes e a instituição de caridade, geralmente associada à recolha de órfãos, abrigos ou casas para os pobres. No quattrocento italiano, no contexto de transformações da cidade-estado e suas instituições de bem-estar, surge uma nova arquitetura e tipologia de hospital, que o distanciou das instituições medievais. Um símbolo desta reforma é a utilização da cruz grega e formação de claustros nos espaços, o que permitiu a classificação e separação dos internos. Em 1498, por decreto de D. Manuel I, em Lisboa, cria-se a 1ª Santa Casa de Misericórdia em Portugal, modelo que se estende naquele país e posteriormente na sua colônia do Brasil.

 

Em 313, com a ascensão de Constantino ao trono de imperador romano, a liberdade de culto aos cristãos é concedida. Nesse período, marca-se o fim da arte catacumbária, pois o cristianismo e seus templos passam a ser permitidos oficialmente. É desse período que se concebe a basílica papal mais antiga, São João de Latrão, cujo terreno foi doado por Constantino, servindo de residência ao Papa Silvestre I (314-335). Em 326 ocorre a oficialização imperial do Cristianismo, com o Édito de Milão, declarando a liberdade religiosa e de culto nas fronteiras do Império Romano. Em 330 Constantino transfere sua capital para Constantinopla, antiga Bizâncio, nome que se deriva o Império Bizantino. Teodósio II, em 380, institucionaliza o Cristianismo como religião oficial e dá início à perseguição aos pagãos, e em 395, divide o Império em 2 capitais: Roma e Constantinopla.

 

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Basílica de São João de Latrão. Fachada (século XVIII) e interior. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Basílica antiga de S. Pedro, iniciada por Constantino, Roma. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bas%C3%ADlica_de_S%C3%A3o_Pedro. Acesso em: 25 set. 2016.

 

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Atual basílica de São Pedro, dos séculos XVI e XVII. Fachada e interior. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

Com o enfraquecimento da capital Roma, o Império do Ocidente é invadido e saqueado constantemente pelas diversas tribos bárbaras que viviam dentro e fora das fronteiras romanas. Em 410 Alarico, rei Visigodo, saqueia Roma, quando São Jerônimo profere sua célebre frase: “se até Roma acaba, o que é eterno nesse mundo?” Em 455, o rei vândalo Genserico saqueia Roma novamente, destruindo o Templo de Júpiter Optimus Máximus, no Monte Capitolino, dando origem ao termo “vandalismo”.

 

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Karl Briullov. Genserico saqueia Roma. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Genseric_sacking_Rome_455.jpg. Acesso em: 25 set. 2016.

 

A morte de Átila, rei dos Hunos, em 456, nos faz lembrar dessa terrível tribo mongólica que acelerou o declínio de Roma, empurrando outras tribos para dentro das fronteiras. Em 476 marca-se a Queda de Roma do Ocidente, cujo último imperador foi Romulo Augustulo, deposto por Odoacro, rei Lombardo hérulo. Ironicamente, seu nome recorda o fundador de Roma e o primeiro imperador.

 

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Invasões bárbaras. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Migra%C3%A7%C3%B5es_dos_povos_b%C3%A1rbaros.  Acesso em: 25 jul 2017.

 

Clóvis foi o primeiro rei dos francos a unir as tribos e aderir ao catolicismo, em oposição ao arianismo (considerado herético pelos católicos), em 496. Esposo de Santa Clotilde, foi o fundador da dinastia merovíngia da Franquia (atual França). Progressivamente, diversos reis germânicos se convertem ao catolicismo, ampliando uma unificação religiosa cristã em boa parte do subcontinente e adjacências. Em 529, São Bento funda o primeiro mosteiro da Europa, em Monte Cassino, na Itália. Os Beneditinos estabelecem uma disciplina centrada no trabalho, na pobreza e na castidade, com o lema “trabalhe e ore”. Os mosteiros católicos passarão a preservar os textos clássicos que frequentemente se perdiam na instabilidade que o Ocidente se afundava, através dos monges copistas e de suas ricas bibliotecas.

 

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Thomas Couture: Os romanos da decadência (1847). Museu d’Orsay, França. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Couture. Acesso em: 25 set. 2016.

 

Gradualmente, os bárbaros vão absorvendo a cultura romana e a religião católica. Ao mesmo tempo, a cultura romana deteriora-se em diversos pontos da Europa Ocidental, comprometendo a existência, manutenção e construção de edifícios e equipamentos administrativos e eruditos, como bibliotecas e basílicas. Com o avanço do Cristianismo e a introdução da moral judaico-cristã no território europeu, costumes pagãos indesejados são gradualmente banidos, enquanto outros costumes e festividades são cristianizados e permitidos pela Igreja em ascensão. As lutas romanas gladiatórias são condenadas e proibidas, levando diversos anfiteatros e teatros romanos à condição de ruínas, usados como pedreiras, como o caso do Coliseu, ou ao reaproveitamento dos alicerces como base para novos edifícios, como o Teatro de Marcelo e o Estádio de Domiciano, em Roma, assim como o Palazzo Vecchio em Florença, convertido em palácio-fortaleza. As Olimpíadas gregas são banidas por decreto do papa Teodosio I, em 392, por se enquadrarem dentro dos ritos e festividades politeístas pagãs. Lucca, na Toscana italiana, é uma cidade que exemplifica a preservação do traçado da Antiguidade romana durante a Idade Média e Renascimento. Na imagem abaixo, conseguimos identificar o traçado retangular do centro histórico romano, com a Piazza San Michele ocupando o antigo fórum. Vemos também os complexos sistemas de muralhas medievais e renascentistas, que alteraram seus desenhos após a introdução da artilharia de canhão nas guerras, inutilizando as concepções de muralhas medievais. Como as muralhas atualmente não possuem mais as funções militares de defesa da qual se destinavam, elas se tornaram um agradável e belo passeio de pedestres e jardins públicos. O anfiteatro romano da cidade foi convertido em praça pública, ainda nos tempos medievais, conhecida como Piazza del Anfiteatro. Os edifícios que hoje a ladeiam se erguem sobre as antigas estruturas das arquibancadas.

 

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Lucca, Itália. Piazza del Anfiteatro. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Lucca, Itália. Detalhe da Piazza del Anfiteatro. Fonte: Google Earth. Acesso em: 25 set. 2016.

 

Uma parte significativa das grandes igrejas e catedrais medievais são herdadas das plantas basilicais romanas, dentro da diversidade de traçados, como o octógono e a cruz grega, tradicionais no Oriente. A planta em cruz latina, comum na arquitetura católica medieval, torna-se o modelo principal para igrejas e catedrais ocidentais. Seus elementos tradicionais, derivados das basílicas tribunais da Roma Antiga, consistem em uma nave central ou principal, as naves laterais, o transepto (elemento cristão) e o altar, ocupando a cabeceira da nave na tradicional abside romana. Muitos edifícios suportam cúpulas, tendo como modelo o próprio Panteão de Roma, especialmente no cruzeiro, local de interseção entre a nave central e o transepto.

 

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Basílica de Santa Sabina no Aventino, Roma, 422-432. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

Dentro da arquitetura secular medieval, uma das mais emblemáticas estruturas são as que se destinavam à defesa, como os castelos, muralhas e cidades fortificadas. Muros com ameias fornecem proteção para arqueiros se defenderem contra os invasores, tornando-se uma imagem popular dos castelos medievais. Além dos castelos, outros exemplos são notáveis, como casas senhoriais, prefeituras, palácios públicos, asilos, universidades, pontes e, mais raras, casas residenciais.

 

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San Gimignano e suas torres medievais. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Castelo de Tivoli, c. 1461. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

A Baixa Idade Média caracteriza-se pelo sistema senhorial socioeconômico conhecido como feudalismo, desenvolvido nos séculos XI e XII, e pela unificação cristã nas terras mais distantes, como a Escandinávia dos Vikings. Como consequência das Cruzadas, em parte, assiste-se o renascimento urbano e comercial em larga escala, junto à uma explosão na taxa de natalidade.  Artisticamente, temos o desenvolvimento dos períodos românico e gótico, época conhecida como A era das catedrais.

 

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Cidadela de Carcassone, França. Suas muralhas e estruturas passarão por restaurações e reconstruções durante o século XIX, chefiadas por Viollet-le-Duc. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Ciudadela_de_Carcasona. Acesso em: 25 set. 2016.

 

Sobre as cidades medievais, Leonardo Benevolo, em A História da Cidade, nos aponta informações importantes sobre o período. A orientação das cidades medievais não busca reestabelecer os modelos formais da Antiguidade, pois se adaptam às circunstâncias históricas, culturais e geográficas particulares. Entretanto, Benevolo cita características gerais das cidades medievais:

1- As cidades medievais têm uma rede de ruas não menos irregular que a das cidades muçulmanas. Porém, as ruas são organizadas de modo a formar um espaço unitário, no qual sempre é possível orientar-se e ter uma ideia geral do bairro ou da cidade. As ruas não são todas iguais, mas existe uma gradação contínua de artérias principais e secundárias; as praças não são recintos independentes das ruas, mas largos ligados estreitamente às ruas que para elas convergem. Somente as ruas secundárias são simples passagens: todas as outras se prestam a vários usos: ao tráfego, à parada, ao comércio, às reuniões. As casas, quase sempre de muitos andares, se abrem para o espaço público e tem uma fachada que contribui para formar o ambiente da rua ou da praça.

Os espaços públicos e privados não formam, pois, zonas contíguas e separadas, como na cidade antiga: existe um espaço público comum, complexo e unitário, que se espalha por toda a cidade e no qual se apresentam todos os edifícios públicos e privados, com seus eventuais espaços internos, pátios ou jardins.

Este novo equilíbrio entre os dois espaços depende do compromisso entre a lei pública e os interesses privados. De fato, os estatutos comunais regulam minuciosamente os pontos de contato entre o espaço público e os edifícios privados, e as zonas em que os dois interesses se sobrepõem: as saliências das casas que cobrem uma parte da rua, os pórticos, as escadas externas, etc.

2- O espaço público da cidade tem uma estrutura complexa, porque deve dar lugar a diversos poderes: o episcopado, o governo municipal, as ordens religiosas, as corporações. Assim, uma cidade bastante grande nunca tem um único centro: tem um centro religioso (com a catedral e o palácio episcopal), um centro civil (com o palácio municipal), um ou mais centros comerciais com as lojas e os palácios das associações mercantis. Estas zonas podem ser sobrepostas em parte, mas a contraposição entre o poder civil e religioso – que não existia na Antiguidade – é sempre mais ou menos acentuada.

Cada cidade é dividida em bairros, que tem sua fisionomia individual, seus símbolos e muitas vezes também sua organização política. No século XIII, quando as cidades se tornam maiores, formam-se nos bairros periféricos alguns centros secundários: são os conventos das novas ordens religiosas – os franciscanos, os dominicanos, os servitas – com suas igrejas e suas praças.

3- A cidade medieval é um corpo político privilegiado, e a burguesia da cidade é uma minoria da população total, que cresce rápida e continuamente desde o início do século XI, até a metade do século XIV. Portanto, a concentração é sua lei fundamental: o centro da cidade é o local mais procurado; as classes mais abastadas moram nos centros, as mais pobres na periferia; no centro se constroem algumas estruturas muito altas – a torre do palácio municipal, o campanário ou os zimbórios da catedral – que assinalam o ponto culminante do perfil da cidade e unificam o seu cenário também na terceira dimensão.

Toda cidade deve ter um cinturão de muros para se defender do mundo exterior, e enquanto cresce deve construir muitos cinturões concêntricos; estes muros, que são a obra pública mais cara, tem quase sempre um traçado irregular e arredondado, o mais breve possível para circundar uma dada superfície.

A construção de um novo cinturão é adiada até que no velho não haja mais espaço disponível; portanto, os bairros medievais são compactos, e as casas se desenvolvem em altura. Somente os grandes muros construídos em fins do século XIII e no início do século XIV – em Florença, em Siena, em Bolonha, em Pádua, em Gand – se revelaram demasiado grandes quando a população, no século XIV, deixou de crescer ou diminuiu. Em seu interior ficaram grandes espaços verdes, que foram ocupados somente no século XIX.

4- As cidades medievais que conhecemos receberam uma forma definitiva nos séculos seguintes, do século XV ao século XVIII, quando seu tamanho e sua aparelhagem já estavam estabilizados.

Nos séculos precedentes, quando estavam em pleno crescimento, seu aspecto devia ser muito mais desordenado. As igrejas e os palácios mais importantes eram canteiros cobertos de tapumes, cada nova obra era uma adição surpreendente. A unidade era garantida pela coerência do estilo, isto é, pela confiança no futuro, não pela memória de uma imagem passada. O gótico é justamente o estilo internacional que unifica os métodos de construção e de acabamento dos edifícios em toda a Europa, da metade do século XII em diante.

É o quadro descrito de maneira feliz por Le Corbusier em seu livro de 1937, quando as Catedrais eram brancas:

“Quando as catedrais eram brancas, a Europa havia organizado as atividades produtivas segundo as exigências imperativas de uma técnica nova, prodigiosa, loucamente temerária, cujo emprego conduzia a sistemas de formas inesperadas – formas com um espírito que desdenhava as regras de mil anos de tradição, e não hesitava em projetar a civilização numa aventura desconhecida. Uma língua internacional favorecia a troca de ideias, um estilo internacional era difundido do Ocidente para o Oriente, do Norte para o Sul.

As catedrais eram brancas porque eram novas. As cidades eram novas: eram construídas de todas as medidas, ordenadas, regulares, geométricas, segundo um plano (…). Sobre todas as cidades e todos os burgos cercados de novos muros, o arranha-céu de Deus dominava a paisagem. Tinha sido feito mais alto do que se podia, extraordinariamente alto. Era uma desproporção no conjunto; mas não, era um ato de otimismo, um gesto de altivez, uma prova de mestria.

O novo mundo começava. Branco, límpido, jovial, polido, nítido e sem retornos, o novo mundo se abria como uma flor nas ruínas tinham sido deixados para trás todos os usos reconhecidos, tinha-se dado as costas ao passado. Em cem anos o prodígio foi levado a termo, e a Europa foi mudada  (BENEVOLO, 2012, p. 269-270). ”

 

De acordo com Benevolo, para compreender a cidade antiga, é suficiente uma descrição completa de poucas cidades dominantes, como Atenas, Roma e Constantinopla. Ao contrário, na Idade Média Ocidental, não existe nenhuma supercidade, mas um grande número de cidades medianas, entre as quais uma dúzia, nos séculos XIII e XIV, alcançaram aproximadamente 50.000 a 150.000 habitantes. Cidades mais populosas, como Milão e Paris, alcançaram talvez 200.000 habitantes; Veneza, 150.000; Florença, 100.000; Gand e Bruges, 80.000; Siena, 50.000. Nenhuma superou as capitais dos reinos muçulmanos na Europa, como Palermo, com 300.000 habitantes, ou Córdoba, com mais de meio milhão. No Oriente, Constantinopla e Bagdá possuíam mais de um milhão de habitantes.

 

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Mapa de Bruges, em 1562 (Renascimento). Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://nl.wikipedia.org/wiki/Brugge. Acesso em: 25 set. 2016.

 

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Bruges representada nas Crônicas de Foissart. Século XIV. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://fr.wikipedia.org/wiki/Chroniques_(Froissart). Acesso em: 25 set. 2016.

 

As casas medievais, de acordo com Mumford, chegavam a possuir dois ou três andares, em geral. Utilizavam materiais de construção local, possibilitando inúmeros estilos regionais e vernaculares[2]. Viollet-le-Duc, grande arquiteto medievalista francês, apresentou plantas originais medievais como parte de suas pesquisas de restauração. Os cômodos denominados “alcovas”, na parte interna e íntima da casa, destinavam-se para o aquecimento no inverno, provavelmente. Também foram introduzidas as lareiras de chaminé. Os quartos eram coletivos com camas divididas por cortinas, mas poderiam ter quartos privados. Nas cidades existiam banheiros e cozinhas públicas, e os banhos privados remontam ao século XIII. Os banhos públicos têm origem romana, utilizados na Idade Média para higiene pessoal e pequenos tratamentos médicos. Entretanto, eventuais relações sexuais contribuíram para difamar e fechar muitas destas casas, segundo ao autor.

 

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Albrecht Dürer: Banhos femininos, de 1496. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Albrecht_Durer,_%22Woman’s_Bath%22.jpg. Acesso em: 25 set. 2016.

 

Os vidros eram reservados às construções públicas, igrejas e altas classes, devido ao seu alto valor. O autor aponta, em A cidade na História, algumas pinturas do século XIII e XIV que representam algumas janelas com vidros. Janelas de papel eram também utilizadas, durante a expansão da produção do vidro, nos séculos XIV e XV. Os incêndios também preocupavam os medievais, que utilizavam em boa parte das construções a madeira. Em Lubeck, em 1276, houve uma obrigação de construir tetos e paredes divisórias contra o fogo com uso de alvenaria de pedra. Londres repetiria esse processo quatro séculos depois, no grande incêndio de 1666.

 

As cidades possuíam fornos públicos nas padarias, para atender aqueles que não possuíssem fornos privados. O desenho da cidade era em geral orgânico: as catedrais não possuíam grandes espaços vazios ao redor, como vemos em algumas cidades de hoje, o que valoriza sua verticalização. Nas cidades medievais, haviam hortas e ocupações rurais dentro das cidades, nos jardins e quintais das casas.

 

Sobre o saneamento, Mumford argumenta que, em 1338, Cambridge se torna a primeira cidade com uma lei sanitária da Inglaterra. Em 1388 o parlamento inglês proíbe o lançamento de imundícies nos rios e lagos, inclusive por encanamentos. O crescimento das cidades vai ocupando os espaços dos quintais, hortas e jardins, promovendo uma saturação do meio urbano. O recolhimento dos excrementos urbanos era utilizado para a produção de adubo, além do uso de porcos na limpeza urbana, fato inusitado para os dias de hoje. As fontes e chafarizes, seguindo alguns princípios romanos, eram de encanamentos de chumbo, madeira ou cerâmica. Localizavam-se em largos e praças; na Itália em largos, piazzas e campos, como em Veneza, sendo que muitas fontes agregavam uma função de socialização, associadas às obras de arte, característica que será futuramente exacerbada no Renascimento e no Barroco. Os cemitérios também vão sendo ocupados dentro da área urbana, levando a criação de cemitérios na área rural, indicando a consciência de contaminação das águas.

 

Dentre as inúmeras cidades medievais de grande importância, destaco Lubeck e Paris. Paris surgiu na Île de la Cité (Ilha da Cidade), uma de duas ilhas no rio Sena, sendo a outra chamada de Île Saint-Louis (ilha de São Luís). A ilha é o centro da capital francesa e foi onde a cidade medieval foi fundada. A região da catedral de Notre-Dame foi originalmente o local sagrado dos druidas celtas, convertido após as conquistas gálicas de Júlio César, no século I a.C., para templo de Júpiter e local de martírio de St. Denis. Paris, na época romana, chamava-se Lutécia (Lutetia Parisiorum), da tribo gaulesa dos Parisii. A cidade possui seu cardus maximus na rua St. Martin, na margem direita, e na rua St. Jacques, na margem esquerda. Na ponta oeste da ilha encontra-se um palácio merovíngio (primeira dinastia de reis francos) estabelecido por Clóvis, o primeiro rei merovíngio cristão. A ponta leste, na mesma época, havia sido reservada para edifícios religiosos, no local da atual Catedral de Notre-Dame. A ilha foi cercada por grandes muralhas, que ajudaram a proteger a cidade durante os ataques vikings de 885 a 886. Em 1163 estabelece-se o “culto das carroças”, onde nobres e plebeus carregavam os materiais de construções da Notre-Dame como forma de absolvição dos pecados. No Quartier Latin, na parte continental sul da ilha, foi fundada a Universidade de Sorbonne e outras escolas, nas encostas da colina de Santa Genoveva, considerada até os dias de hoje como uma das mais importantes universidades do mundo. Na mesma região encontram-se ruinas romanas, como o anfiteatro (Arena de Lutécia) e os banhos.

 

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Mapa de Paris (Lutécia) em 508, da Coleção d’Anville, de 1705. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Paris. Acesso em: 25 set. 2016.

 

Lubeck, na Alemanha, foi oficialmente fundada em 1158 por Henrique, o Leão, mas tem sua área ocupada desde o século I a.C., com os primeiros assentamentos eslavos. Sua expansão deve-se ao papel de liderança na Liga Hanseática, que se baseava em acordos comerciais e alianças militares de cidades do norte da Europa. Sua localização e portos foram estratégicos para a comunicação entre o Ocidente e o Oriente, passando principalmente pela República de Veneza, cidade que veremos com mais atenção na Estrutura Didática. Lubeck ainda possui um dos maiores portos da Alemanha. O centrohistórico da cidade, com uma importante arquitetura gótica, foi parcialmente reconstruído após os danos sofridos na Segunda Guerra Mundial.

 

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A medieval Lubeck, na Alemanha. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%BCbeck. Acesso em: 25 set. 2016.

 

[1] Iluminura são ilustrações, pinturas e letras capitulares ornamentais trabalhadas em manuscritos medievais, como códices e pergaminhos, produzidos nos conventos e abadias católicas e escolas palatinas da Idade Média. Poderiam ser decorados com pinturas bem como com folhas de outo e prata. Evangeliários e saltérios são livros devocionais cristãos contendo o Livro dos Salmos, usados nos mosteiros e conventos na recitação das Horas Canônicas (Livro das Horas), estabelecido pela Ordem Beneditina na Alta Idade Média. Eram também utilizados na alfabetização dos não religiosos das classes mais abastadas.

[2] A arquitetura vernacular utiliza materiais e recursos nativos, apresentando características locais e regionais não encontradas em outras localidades.

 

Roma: cidades e fundamentos urbanos

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Por Marcelo Albuquerque

Aqui pretendo traçar linhas gerais sobre a concepção de uma cidade romana criada praticamente do zero, a partir de assentamentos militares e com fins coloniais. A cidade de Roma não se enquadraria nesse contexto, por ter se formado em um período distante e com circunstâncias diferentes, como apresentado em Origens Míticas e Históricas. O desenho urbano[1] romano ainda se apresenta em muitas cidades europeias e do Mediterrâneo, como no norte da África e no Oriente Médio, preservando os desenhos originais e centros mais antigos. Como aponta Mumford, em A cidade na história, os romanos, segundo Varrão, realizavam ritos etruscos ao fundar novas cidades. Não começavam simplesmente com um augúrio, mas também com a demarcação dos contornos da cidade por um sacerdote que guiava a charrua. Dessa prática surgiu o pomerium, um cinturão sagrado dentro e fora da muralha, onde nenhum edifício podia ser edificado, representando os limites sagrados[2] (ver Palatino).

Os romanos privilegiavam uma cidade planejada ortogonalmente conectada pelas estradas pavimentadas, abastecida por aquedutos e rede de esgotos[3]. O planejamento seguia as tradições etruscas e gregas, especialmente as das cidades helenísticas. A cidade helenística, como aponta Mumford (1998), é equipada com sistema sanitário, possui ordenação geométrica e tende a uma estética unificada. A impressão estética é enaltecida com a adoção de longos eixos em perspectiva e monumentalidade. Hipódamo de Mileto (498-408 a.C.) foi um teórico da cidade grega, representante da antiga Escola Jônia. Hipódamo foi o introdutor de uma planificação apoiada em ruas largas que se cruzavam em ângulos retos, como um tabuleiro de xadrez. Já o traçado em tabuleiro das cidades planejadas era uma tradição da Jônia, desde o sec. VII, aplicado às colônias gregas que se espalhavam pelo mundo mediterrâneo e outras regiões interioranas. O desenho reticulado designava áreas distintas adequadas ao modo de vida e divisão de classes gregas, estabelecendo as áreas comerciais, residenciais e as ágoras planejadas. Foi o primeiro arquiteto grego conhecido a conceber um planejamento urbano e a estrutura de uma cidade a partir de um ponto de vista que privilegiava a funcionalidade.

As novas cidades eram planejadas como novas colônias, carecendo de fortificação e um bom sistema de defesa. As cidades, exceto Roma, possuem seu espaço dividido em quadrângulos regulares, baseados nos acampamentos militares chamados castrum (ver Castrum), cujo centro era denominado fórum. Dessa forma, o castrum era dividido em quatro partes, chamados distritos. Algumas cidades possuíam áreas sagradas elevadas, as acrópoles, segundo tradições itálicas e helenísticas. O esquema mais organizado era o baseado em dois eixos principais: o cardo maximus (norte-sul) e o decumanus maximus (leste-oeste), cuja interseção se encontravam os fóruns. Entretanto, algumas cidades, como Pompeia, possuíam dois ou mais fóruns secundários. A forma da cidade geralmente correspondia a um quadrado, mas poderia ser em um polígono desigual, como a cidade de Silchester na Grã-Bretanha[4]. Nos fóruns, como foi visto anteriormente, eram realizadas as principais reuniões políticas, legislativas, judiciais, comerciais e religiosas (ver Fórum Romano).

Mumford, em A cidade na história, aponta algumas características das cidades romanas. Hígeno, arquiteto romano, considerava o tamanho ideal de uma cidade romana planejada em 730 por 490 m., como Turim e Aosta, principalmente devido às estratégias de defesa e fortificação[5]. As cidades parecem ter sido planejadas para, no máximo, 50.000 habitantes. Podiam haver legislações sobre o tráfego intenso de carroças, com leis que proibiam o trânsito de dia, conforme decreto de Júlio César, banindo o tráfego de rodas durante o dia em Roma, causando um problema maior: o tráfego a noite, perturbando o sono dos cidadãos romanos. Sobre as cidades romanas, o autor comenta:

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Lucca romana. Adaptado do Google Earth. Marcelo Albuquerque, 2017.

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Anfiteatros

Por Marcelo Albuquerque

O antigo anfiteatro romano de Florença foi construído na década de 120 d.C., fora dos muros da cidade, na direção leste, entre a Piazza dela Signoria e a Piazza di Santa Croce. De forma elíptica, possuía um diâmetro de aproximadamente 126 metros, para aproximadamente 20.000 expectadores. Assim como no anfiteatro de Lucca, o anfiteatro de Florença foi tomado por casas medievais, aproveitando as bases estruturais de concreto e alvenaria, ocupando inclusive a arena, o que não aconteceu em Lucca, onde se preservou a arena, mas como praça (Piazza dell’Anfiteatro). Podemos ver claramente seu formato elíptico em imagens aéreas, delimitando uma espécie de quarteirão, cortado por duas (via dell’Anguillara e via Borgo dei Greci).

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Piazza dell’Anfiteatro, antigo anfiteatro de Lucca. Adaptado do Google Earth, 2017.

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Lucca: Piazza dell’Anfiteatro. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Lucca: Piazza dell’Anfiteatro. Detalhe das arcadas na forma original. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Veja também: Coliseu

Viagem à Itália – Sugestão de roteiro – 12 dias

Por Marcelo Albuquerque

Roma

DIA 01: COLISEU – FÓRUM – PALATINO

Coliseu (comprar Romapass ao chegar em Roma). Arco de Constantino. Fórum Romano: Antiquarium Forense: museu do fórum. Junto ao Templo de Vênus e Roma. Arco de Tito. Via Sacra. Basílica de Constantino. Templo de Antonino e Faustina. Arco de Sétimo Severo. Templo de Saturno. Casa das Virgens Vestais. Templo de Vesta. Cúria. Palatino: Domus Flavia. Domus Augustana. Casa de Lívia. Stadium. Templo de Cibele. Cabanas de Rômulo. Museu do Palatino, Jardins Farnese. Fórum de Trajano: Fórum de Cesar, Augusto e Nerva. Fórum e Mercado de Trajano. Coluna de Trajano. Torre dele Milizie. Casa dos Cavaleiros de Rodes.

DIA 02: CAMPIDOGLIO – FÓRUM BOÁRIO – TRASTEVERE

Piazza Venezia. Monumento Vittorio Emanuelle II: subida ao mirante. Insula. Scalinata dell’Aracoele. Santa Maria in Aracoele: antigo templo de Juno. Museus capitolinos. Palazzo Nuovo, Palazzo dei Conservatori e Tabularium. Caminhada pelas bases do Capitolino e Palatino. Teatro de Marcelo – Templo de Apolo – Pórtico de Otavia. Nossa Senhora da Consolação – via de San Teodoro. Santa Anastasia al Palatino. Circo Massimo. Santa Maria in Cosmedin. Fórum Boário: templos de Portuno e Hercules. Boca da Verdade. Arco de Jano. São Jorge Velabro. Vista do Tibre para a Ponte Rotto e Ponte Palatino. FIM DE TARDE: Trastevere: bares e restaurantes. Santa Maria in Trastevere.

DIA 03: PIAZZA NAVONA – PANTEÃO – FONTANA DE TREVI

Il Gesu: ícone de igreja jesuíta e barroca. Largo da Torre Argentina. Sant Andrea della Vale. Piazza Navona. Fonte dos Quatro Rios – Bernini. St Agnese – Borromini. San Luigi dei Francesi – Caravaggios. Palazzo Madama – fachada – Senado italiano. Santo Ivo alla Sapienza – Torre em espiral – Borromini. Panteão. Piazza della Minerva – Elefante de Bernini – Santa Maria sopra Minerva. Caminhada pela via dei Pastini – Templo de Adriano. Coluna de Marco Aurélio. Fontana de Trevi.

DIA 04: VATICANO

Museus Vaticanos (maior parte do dia – comprar os ingressos com antecedência pela internet). Piso inferior: Museu Egípcio. Museu Pio-Clementino. Museu Pio-Cristão. Capela Sistina. Biblioteca do Vaticano. Bracio Nuovo. Museu Chiaramonti. Sala da Cruz Grega. Sala Redonda. Pinacoteca. Museu Gregoriano Profano. Piso superior: Salas de Rafael – Academia de Atenas. Museu Etrusco. Galeria das Tapeçarias. TARDE: Basílica de São Pedro. Scavi: subsolo da basílica de São Pedro (reservar antes). Subida até a cúpula de Michelangelo. Fim da tarde: passeio no entorno do Castelo de Santo Ângelo (se puder entrar melhor).

DIA 05: QUIRINAL – PIAZZA DI SPAGNA: DESTAQUE PARA A ARTE E ARQUITETURA BARROCA

Galeria Borghesi. Termas de Diocleciano. Basílica de Santa Maria degli Angeli (Michelangelo). Museu Nacional Romano. Santa Maria dela Vitoria – Êxtase – Bernini – Fontana di Mosé. Via alle Quattro Fontane – Palazzo. Viminale. San Carlo alle Quattro Fontane – Borromini. Piazza dei Spagna. Trinita dei Monti – Panorâmica de Roma. Piazza del Popolo. Santa Maria in Montesanto e dei Miracoli. Santa Maria del Popolo – Caravaggios. Porta del Popolo.

DIA 06: AVENTINO – TERMAS DE CARACALA – VIA APPIA – CATACUMBAS DE CALISTO (PASSEIO DE VAN)

Basílica de Santa Sabina. Parque de Santo Alessio: vista de Roma. Termas de Caracala. Via Appia. Igreja Quo Vadis. Catacumbas de Calixto. Parque dos Aquedutos.

Siena

DIA 07: SIENA

Catedral. Biblioteca Piccolomini. Museu do Domo. Batistério San Giovanni. Piazza del Campo. Palazzo Publico. Basílica de San Domenico. Tarde livre.

DIA 08: SIENA – MONTERIGGIONE – SAN GIMIGNANO – FLORENÇA

Florença

DIA 09: SANTA MARIA DEL FIORE – PIAZZA DELLA SIGNORIA – PONTE VECCHIO – PIAZZALE MICHELANGELO

Santa Maria del Fiore. Domo de Brunelleschi. Piazza della Signoria. Palazzo Vecchio: museu e torre. Corredor Vasari. Ponte Vecchio. Palazzo Piti – fachada (se tiver tempo, entrar nos jardins de Boboli). Piazzale Michelangelo: pôr-do-sol.

DIA 10: GALLERIA DEGLI UFFIZI – SAN LORENZO (CAPELA MEDICI)

Galleria degli Uffizi. San Lorenzo. Capela Medici. Palazzo Medici-Ricardi.  Santa Maria Novela. Palazzo Rucellai – fachada. Santa Croce. Capela Pazzi – Brunelleschi. Tarde Livre. Galleria dela Academia (Davi de Michelângelo) – opcional.

DIA 11: FLORENÇA – PISA – LUCCA

Veneza

DIA 11: PIAZZA DE SAN MARCO – PONTE DO RIALTO

Vaporetto passando pelo Grande Canal completo e Praça de São Marcos. Basílica de São Marcos. Ponte dos Suspiros. Piazza San Giovanni e Paolo. Estátua equestre de Verocchio. Santa Maria dei Miracoli. Ca D’Oro. Caminhada até a Ponte do Rialto.

DIA 12: DORSODURO

Basílica Santa Maria dela Salute. Collezione Peggy Guggenheim. Academia de Belas Artes. Grande Canal. Tarde livre.

DIA 13: RETORNO