Estádio de Domiciano e a Piazza Navonna

Por Marcelo Albuquerque

Do período de governo de Domiciano, destaco o desenho da atual Piazza Navona, local do antigo Estádio de Domiciano. A piazza tem forma de ferradura alongada, pois os atuais edifícios se erguem sobre as antigas arquibancadas do estádio, sendo possível visitar o subsolo da praça através de um museu subterrâneo dedicado às relíquias da Roma Antiga, entre os antigos alicerces. Sendo assim, seu formato nos apresenta a história do desenho urbano e dos edifícios, suas formas e as transformações que as cidades podem sofrer ao longo dos anos. Na entrada do museu, é possível ver uma arcada original do estádio. A praça em si era a arena por onde aconteciam os espetáculos artísticos e atléticos. Na Piazza Navona localiza-se o edifício da embaixada do Brasil na Itália. Predominantemente barroca, é ornamentada com a Fontana dei Quattro Fiumi (Fonte dos Quatro Rios), esculpida por Gian Lorenzo Bernini, entre 1648 e 1651. Acima da fonte está o Obelisco Agonalis. Ela representa os quatro principais continentes do mundo cortados por seus principais rios: Rio Nilo, Rio Ganges, Rio da Prata, Rio Danúbio. De frente à fonte, está a bela Igreja de Santa Inês, do também arquiteto e rival de Bernini, Francesco Borromini. Bernini e Borromini são dois grandes nomes e merecem atenção especial para uma boa compreensão do barroco italiano.

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Piazza Navona: obelisco e fontes. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Panteão de Roma

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Por Marcelo Albuquerque

Adriano, cujo governo se estendeu de 117 a 138, pode ser considerado um dos maiores construtores dentre os imperadores. Supõe-se que o próprio tenha projetado o Panteão, construído entre 118 a 128, ou por Apolodoro de Damasco. Construído por Adriano, no lugar de outro templo construído pelo cônsul Marco Agripa, o Panteão é o edifício romano mais bem preservado tanto na estrutura quanto nos revestimentos e ornamentos. Isso se explica em parte por ter sido usado como basílica católica pelo Papa Bonifácio em 609, sob o nome de Santa Maria e Mártires, ajudando consideravelmente na manutenção do edifício, evitando sua descaracterização. Entretanto, muitos elementos originais se perderam, como as antigas esculturas e elementos de bronze do pórtico. No entablamento, abaixo do frontão, lê-se a inscrição M·AGRIPPA·L·F·COS·TERTIVM·FECIT, que significa Marco Agripa, filho de Lúcio, construiu durante o seu terceiro consulado. Seus interiores apresentam o uso do concreto decorado, com revestimentos e ornamentação em mármores coloridos nobres, substituindo o uso de afrescos e mosaicos de estilos de pintura anteriores. O Panteão acolhe, no seu interior, a forma de uma esfera perfeita de aproximadamente 43 metros de diâmetro, do piso ao óculo.

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Panteão de Roma e a Piazza della Rotonda, com o obelisco egípcio Maculeo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Inscrição M·AGRIPPA·L·F·COS·TERTIVM·FECIT, no pórtico do Panteão. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

O nome Panteão é derivado do grego antigo Pantheion, comum a todos os deuses. Entretanto, não se sabe ao certo quais eram as divindades ou personalidades cultuadas no Panteão nos tempos antigos, sendo provável o culto aos deuses planetas, como Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Como veremos mais adiante, é um dos edifícios mais influentes da história, sendo imitado, reproduzido e homenageado em diversas épocas, do Renascimento aos tempos modernos, como na arquitetura maneirista de Palladio e na igreja de Sainte-Geneviève, em Paris, desconsagrada e transformada em monumento secular, durante a Revolução Francesa, sendo rebatizada de Panteão de Paris. O termo panteão tem sido aplicado a outros prédios onde os mortos ilustres são honrados ou enterrados, como ocorre em Ouro Preto, no Museu da Inconfidência, local dos restos mortais de alguns inconfidentes mineiros.

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Interior do Panteão de Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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O Tempietto de Bramante e o Gianicolo

Por Marcelo Albuquerque

O Tempietto, no monte Gianicolo, antiga colina de Roma, dentro do complexo de San Pietro in Montorio, foi construído por Donato Bramante entre 1502 e 1509. É uma grande joia arquitetônica do Renascimento inspirado no tholos clássico, conhecido por sua investigação proporcional e geométrica na relação entre as partes. Construído no meio de um dos pátios do mosteiro, é composto de uma colunata dórica de granito cinza, com entablamento com frisos e decorado com métopas e triglifos. O templo, muito pequeno, tem forma circular e um corpo cilíndrico com diâmetro de apenas 4 metros, pois tem uma função puramente simbólica e memorial, mais do que um espaço dedicado às funções litúrgicas. A forma cilíndrica foi cuidadosamente transformada no interior, com altos e profundos nichos, quatro dos quais recebem pequenas estátuas dos evangelistas, enquanto no altar está uma estátua de São Pedro. O suntuoso piso é feito inteiramente com azulejos policromos de mármore, em estilo cosmatesco medieval, mas que havia voltado à moda no final do século XV. A cúpula foi projetada em concreto e tomou como modelo o Panteão, colocada sobre um tambor decorado por pilastras formando um sobreposto com as colunas. Sob o templo, há uma cripta também circular, cujo centro indica o local onde foi plantada a cruz do martírio de São Pedro. A ideia de Bramante nasceu do desejo de criar um edifício que iria seguir o exemplo das primeiras e pequenas construções circulares cristãs usadas geralmente como martirya, fundamentadas no tholos greco-romano. A influência do pequeno templo é colossal, vista na cúpula da Basílica de São Pedro, de Michelangelo, e no Capitólio, em Washington DC, ou mesmo no Panteão, em Paris.

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Tempietto de Bramante. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Tempietto de Bramante localiza-se no monte Gianicolo (Janículo, em português), antiga colina de Roma, dentro do complexo de San Pietro in Montorio. A colina não faz parte do grupo das sete colinas tradicionais, ligadas às origens de Roma. O nome da colina, segundo a tradição, deriva do deus Janus, o deus de duas faces, ainda dos tempos dos etruscos. A colina não fazia parte da antiga Muralha Servia, mas foi incluída parcialmente nas Muralhas Aurelianas. Na encosta oriental que desce para o rio Tibre localiza-se o distrito histórico de Trastevere, enquanto a ocidental leva ao bairro moderno de Monteverde. É um dos pontos turísticos mais atrativos da cidade, com vistas panorâmicas da cidade velha, abrigando monumentos arquitetônicos, igrejas e fontes. Nos tempos antigos estava coberta de bosques sagrados dedicados a diversos deuses pagãos, incluindo a deusa egípcia Isis. Dentre as atrações do Gianicolo, destacam-se o monumento equestre a Giuseppe Garibaldi, a Villa Doria Pamphili, Villa Corsini, igrejas e conventos como San Pancrazio, San Pietro in Montorio e o Convento de S. Onofrio.

Tempietto de Bramante. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.
Tempietto de Bramante. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

O Gianicolo tornou-se, após a unificação da Itália, no século XIX, um grande parque público e memorial do Risorgimento. Em 1849, liderados por Giuseppe Garibaldi, na colina teve lugar a última forte defesa da República Romana proclamada no mesmo ano. No ponto mais alto da colina foi colocada a estátua equestre de Garibaldi, concebida por Emilio Gallori, inaugurada em 1895, e de Anita Garibaldi, obra de Mario Rutelli, de 1932, em colaboração com Silvestre Cuffaro. Na encosta, ao longo do caminho que desce para o Vaticano, foi colocada uma série de bustos de mármore de retratos de guerrilheiros famosos. Perto da estátua de Garibaldi foi colocado um canhão que dispara, ao meio-dia, um tiro. Pode-se observar também o Ossuário de Garibaldi, um monumento de feição neoclássica do período fascista de Mussolini. Foi desenhado pelo arquiteto Giovanni Jacobucci (1895-1970) e solenemente inaugurado em 1941, contendo os restos mortais de combatentes referentes às batalhas até a década de 1870.  Em uma área cercada, um pórtico austero em mármore travertino, constituído por três arcos de volta perfeita de cada lado, contém o núcleo do monumento: um altar esculpido de um único bloco de granito vermelho, adornado com alegorias da Roma Antiga, como a loba, a águia imperial, escudos e espadas. Acima dos arcos vemos as palavras “Roma o morte”. No local são realizadas celebrações oficiais.

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Ossuário de Garibaldi, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Vista de Roma a partir do Acqua Paola. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Placa da Academia de Espanha na entrada do Tempietto. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A igreja de San Pietro in Montorio, onde se situa o Tempietto de Bramante, é o local que, segundo a tradição, tinha sido crucificado São Pedro, local citado desde o final da Alta Idade Média, por volta do século IX.  No local foi erguido um mosteiro para os beneditinos, e no século XV, já em ruínas, passa para os franciscanos, que restauram e ampliam o complexo, reerguendo uma nova igreja, dentro de um programa de desenvolvimento planejado por Sisto IV. As obras foram financiadas por monarcas como Luís XI de França e Ferdinando II e Isabel de Castela, reis de Espanha. A igreja foi consagrada pelo Papa Alexandre VI (Rodrigo Borgia) em 1500. O complexo sofreu graves danos nas mãos dos franceses, quando Napoleão III interveio para acabar com a segunda República romana de 1849. Durante a defesa do Gianicolo, a igreja foi usada como um hospital, além de ter sido saqueada.

Igreja de San Pietro in Montorio. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Atualmente pertence à Real Academia Espanhola, em Roma (existem vários edifícios de Espanha na Via Garibaldi até a Piazza San Pietro in Montorio, pertencentes à embaixada espanhola). A igreja possui obras de artistas eminentes dos séculos XVI ao século XVII, como Sebastiano del Piombo, Pomarancio, afrescos da escola de Pinturicchio, atribuições de Baldassare Peruzzi e Francesco Baratta. Até 1797 a Transfiguração de Rafael estava no altar-mor, quando foi retirado pelos franceses mas devolvido em 1816, quando passou para a Pinacoteca do Vaticano, sendo substituído por uma cópia da Crucificação de São Pedro de Guido Reni. A segunda capela do lado esquerdo, a Capela Raimondi (1640), foi projetada por Gian Lorenzo Bernini.

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Interior da igreja de San Pietro in Montorio. À esquerda, a Capela Raimondi, com o relevo do Êxtase de São Francisco, de Francesco Baratta, 1640. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Na rampa chamada Via S. Pietro in Montorio, que encurta o caminho da Via Garibaldi até a praça da igreja, foram erguidas, em 1957, as estações da Via Crucis feitas de terracota policromada pelo escultor Carmelo Pastor, no lugar de outra que estava em ruínas.

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Via Crucis in San Pietro in Montorio, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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O Aventino visto do Gianicolo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A fonte Acqua Paola está localizada no topo do Gianicolo, próximo ao Ossuário de Garibaldi. No passado, era o terminal de abastecimento da Acqua Paola (aqueduto de Trajano), restaurada entre 1608 e 1610 pelo Papa Paulo V, responsável pelo abastecimento de áreas como o Trastevere e o Vaticano. De monumental beleza, é um dos principais cartões postais da cidade. A metade inferior é composta por arcos, sendo três grandes arcos centrais ladeados por dois menores, separados por colunas em altos pedestais. A metade superior, acima dos três arcos centrais, é ocupada por uma grande inscrição que testemunha a construção da fonte, como um ático de arco de triunfo. A estrutura é coroada com um enorme brasão do Papa (Borghese) no frontão, ladeado por dois anjos esculpidos por Ippolito Buzzi (1562-1634). Parte de seus mármores foram retirados do fórum de Nerva.

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Aqua Paola. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Acqua Paola. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A Fonte da Prisão está localizada na Via Goffredo Mameli com a Via Luciano Manara, na descida do Gianicolo para o Trastevere. O nome “Prisão” advém da figura de mármore que aparentava ser um prisioneiro que tenta libertar-se da matéria, de acordo com descrições do século XVII. Esta escultura seria parte de um grupo mitológico maior, hoje perdido, inserido no nicho da fonte. Foi terminada em 1587 quando da renovação e restauração da antiga Acqua Alexandrina, porém esta foi desmontada e remontada na posição que ocupa desde 1923.  Seu desenho consiste em um grande nicho em semi-cúpula delimitado por duas pilastras que sustentam o frontão decorado com guirlandas e cabeças de leão (símbolo heráldico de Sisto V). Na base, estão bacias que recebem águas das torneiras, enquanto a cabeça de um leão, no centro, verte água na bacia ao nível da rua. A fonte é ladeada por duas grandes volutas.

A Fonte da Prisão. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Vista de Trastevere, abaixo do Gianicolo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Descendo o Gianicolo, em direção ao Campo de Marte e ao Vaticano, encontramos joias da história da arquitetura, como a Porta Settimiana. Ela é uma das portas que restaram das Muralhas Aurelianas de Roma, concebido pelo imperador Aureliano, no século III d.C.

Porta Settimiana. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.