A Paris de Haussmann

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Por Marcelo Albuquerque

A cidade de Paris foi uma cidade labiríntica de agitadas ruas medievais com traçado urbano que remonta aos tempos dos gauleses e romanos, quando ainda se chamava Lutécia. Ela teve seu traçado urbano remodelado completamente em meados do século XIX, durante o governo do imperador francês Napoleão III. Este nomeou, para seu chefe de departamento de Paris, George-Eugène Haussmann, o grande responsável pela reforma urbana. Haussmann era administrador público e não tinha formação em arquitetura ou planejamento urbano. Paris era uma cidade insalubre e malcheirosa em 1853, quando o imperador deu instruções a Haussmann para reconstruir a cidade com grandes avenidas e rede de esgoto. Para isso, regiões inteiras deveriam ser demolidas e requalificadas. O desejo de Napoleão III e Haussmann era fazer de Paris uma nova Roma. O antigo general governante que se fez imperador, Napoleão Bonaparte, tio de Napoleão III, havia iniciado a construção do Arco do Triunfo, depois da vitória em Austerlitz, em 1805, que se mantem como um dos símbolos mais famosos da França.

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Barão Haussmann. Fonte: Wikimedia Commons.

Dois fatores foram decisivos para dar começos às obras. O primeiro era evitar futuros levantes revolucionários, como os de 1827, 1849 e 1851, quando foram levantadas barricadas na cidade, e devido à reação armada da esquerda e dos operários contra o desejo de Napoleão III de continuar no poder, não mais como presidente eleito diretamente nas eleições da Segunda República, proclamada em 1848, mas como imperador dos franceses. As largas avenidas e boulevares tinham um objetivo importante dentro do contexto das revoluções do século XIX. As amplas vias permitiam que tropas do governo se movimentassem livremente para manter a ordem em tempos revolucionários, de forma a evitar as barricadas e demais distúrbios. Os exércitos e a polícia podiam posicionar suas artilharias de forma a conter as aglomerações que porventura pudessem ocorrer.

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Antiga rua Erfurth (Paris, 6º arrondissement, distrito de Saint-Germain) com uma das duas fontes de Childebert. Fotografia de Charles Marville, 1867. Fonte: Wikimedia Commons.

O outro fator foi uma segunda epidemia de cólera que resultou em dezenove mil vítimas aproximadamente. Com o traçado medieval da cidade, as casas eram amontoadas e insalubres, as ruas eram estreitas e os funestos sistemas de esgotos corriam muitas vezes a céu aberto, juntando-se a superpopulação do centro da cidade.  Essa insalubridade, revoltas e péssimas condições de vida foram tema da grande obra de Victor Hugo, Os Miseráveis.  Um pouco antes, como nos recorda Mumford, em A cidade na história, Londres já vinha promovendo investimentos públicos significativos em obras preventivas nas margens do rio Tamisa, que estavam putrefatas e contaminadas.

O plano incluía a demolição de cerca de dezenove mil prédios históricos e a construção de outros trinta e quatro mil novos, aproximadamente. As antigas ruas foram substituídas por amplas vias, de arquitetura eclética e neoclássica, em tons pastel, alinhados e dentro de proporções uniformizadas. Foram construídos grandes parques, um novo sistema de esgoto, um novo aqueduto para a água doce, rede de gás subterrâneo para iluminação pública e privada, fontes e banheiros públicos. Novas estações de trem foram construídas, bem como o ícone do ecletismo mundial, a Opera de Paris. As avenidas radiais, saindo do Arco do Triunfo, caracterizam o plano de Haussmann.

Paris e o Arco do Triunfo vistos da Torre Eiffel. Edifícios do Boulevard Raspail, com destaque para o hotel Lutetia, Paris. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2019.

Haussmann transformou Paris em vinte anos, quando foi forçado a deixar o cargo em 1870. Seus projetos continuaram sendo seguidos até os anos 1920. Porém, Haussmann também foi criticado, pois demolira a Paris antiga e tradicional, não sendo poupado por críticos, jornalistas e desenhistas de sua época. Os projetos de Haussmann foram sem precedentes pelo fato de ter conseguido resultados com padrões elevados e uniformes em tão pouco tempo, dentro do contexto do ecletismo da segunda metade do século XIX. Até a própria casa em que nasceu fora demolida. O antigo casario foi posto abaixo e, em seu lugar, surgiram os amplos bulevares com novas construções padronizadas, em grande parte de estilo eclético, com serviços de esgoto, gás encanado e abastecimento de água tratada. A altura padrão não ultrapassava seis andares. Foram abertos espaços para os parques públicos e estações de trens dentro da cidade. Edifícios históricos importantes foram preservados, como as igrejas antigas. Uma das obras primas foi a construção da Ópera por Charles Garnier, inaugurada em 1875, um dos mais emblemáticos edifícios da arquitetura eclética francesa. Diversas cidades seguiram o modelo de Paris, como Buenos Aires, Rio de Janeiro, Nova York e Belo Horizonte.

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A demolição e destruição de muitas propriedades residenciais e bairros tradicionais foi inspiração para uma variedade de charges satíricas e políticas durante o Segundo Império, muitas das quais personificaram Paris como feminina. A caricatura de Edmont Morin enfatiza a natureza invasiva e destrutiva da equipe de demolição de Haussmann. Fonte: Wikimedia Commons.

Arco de Constantino

Por Marcelo Albuquerque

O Arco de Constantino localiza-se ao lado do Coliseu, que proporciona uma de suas melhores vistas, entre o Palatino e o Célio, na antiga rota triunfal. O arco foi dedicado pelo Senado em homenagem à vitória de Constantino sobre Maxêncio na Batalha de Ponte Mílvia, em 312, e inaugurado em 315. No momento de sua construção, Constantino ainda não havia declarado a liberdade de culto no império, que ocorreria em 313, com o Edito de Milão, beneficiando especialmente os cristãos. Apesar da tradição hagiográfica da aparição da Cruz ter ocorrido durante a Batalha da Ponte Mílvia, não se encontram representações cristãs em seu arco. O Concílio de Nicéia, que oficializa a aproximação do imperador ao catolicismo, ocorrerá em 325.

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Arco de Constantino, Roma. Fachada norte. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Os relevos do arco apresentam cenas de sacrifício a vários deuses pagãos e bustos de deuses, outrora retirados de outros monumentos e reassentados no novo arco dedicado ao imperador. Entre os relevos recolocados estão peças de um monumento do tempo de Marco Aurélio, e existe a hipótese de que sua estrutura foi iniciada ainda nos tempos de Adriano e depois reformada na era de Constantino, inserindo frisos da época de Trajano nas paredes internas da passagem central, bem como a execução de relevos na era constantiniana. Conforme a tradição iconográfica, assim como no Arco de Sétimo Severo, um lado do arco apresenta o tema da paz, enquanto o outro apresenta o tema da guerra.

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Arco de Constantino, fachada sul. Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Assim como o Arco de Sétimo Severo, o Arco de Constantino possui três arcos, um maior ladeado de dois menores, porém não se comunicam entre si sob as abóbadas. Da mesma forma, possui colunas independentes apoiadas em altos pedestais, bem como a repetição de alegorias, como as Vitórias aladas nos tímpanos dos arcos centrais. Foram inseridas as cornijas salientes acima das colunas na era constantiniana. As esculturas de corpo inteiro, em pedestais sobre as colunas, datam da época de Trajano. Os relevos, reutilizados de outros monumentos de outros imperadores, recordam as figuras dos “bons imperadores” do segundo século – Trajano, Adriano e Marco Aurélio – assimilados à figura de Constantino para fins de propaganda política.

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Arco de Constantino, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Rome Reborn, projeto de Bernie Frischer

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Arco de Septímio Severo

Por Marcelo Albuquerque

Do império de Sétimo Severo, destaca-se o Arco de Sétimo Severo, no Fórum Romano. O arco, do ano 203, é ricamente ornamentado, com colunas independentes nas fachadas. Possui um grande arco central ladeado por dois menores. Os arcos laterais se comunicam com o arco central através de outras duas passagens arqueadas. Foi concebido para celebrar suas vitórias junto aos seus filhos Geta e Caracala sobre os Partas, na Mesopotâmia e Pérsia, entre 195 e 198. As composições dos painéis remetem à Coluna de Trajano, no que se refere à narrativa de conquistas militares, além das alegorias imperiais dos rios da Terra, das estações do ano e das Vitórias aladas.  É o arco romano mais antigo a possuir colunas livres nas fachadas, diferentemente do Arco de Tito, que possui meias-colunas agregas à fachada. Como de costume, acima do ático haviam os grupos de carros e estátuas de bronze imperiais. Conforme a tradição iconográfica, um lado do arco apresenta o tema da paz, enquanto o outro apresenta o tema da guerra.

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Arco de Sétimo Severo, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Fachada leste Arco de Sétimo Severo, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Painéis do Arco de Sétimo Severo, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Chave de arco, Vitórias e arcada do Arco de Sétimo Severo, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Detalhe do capitel compósito e painéis do Arco de Sétimo Severo, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Arco de Tito

Por Marcelo Albuquerque

Saindo do Coliseu em direção ao Fórum Romano, encontra-se o Arco de Tito, construído em 81 d.C. pelo imperador Domiciano. Como vimos anteriormente, um arco de triunfo é uma estrutura monumental, com um ou mais arcos, para celebrar um importante evento relacionado a conquistas políticas, cívicas e militares. O arco comemora a conquista de Jerusalém pelo irmão de Domiciano, Tito, em 79 d.C. A conquista de Jerusalém resultou na destruição do Templo de Salomão, restando apenas os alicerces, conhecidos como o famoso Muro das Lamentações. Outra consequência da conquista foi a Diáspora dos Judeus, momento em que a nação judia se espalha pelo Ocidente e perde definitivamente o poder sobre a Terra Santa, até a criação do Estado de Israel, em 1948. A Via Sacra do Fórum Romano passa sob o Arco de Tito e se estende por todo o monumental fórum. A estrutura consiste em dois grandes pilares ligados por um arco, coroado com ático, que possui inscrições cívicas comemorativas, e no topo havia uma quadriga em triunfo. É decorado com frisos em relevos esculpidos e dedicatórias. Suas meias-colunas compósitas movimentam a fachada da estrutura.

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Arco de Tito, 81 d.C., Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Durante o século XIX as feições originais do Arco de Tito foram sendo restabelecidas e restauradas. Entre os elementos ornamentais, destacam-se a pedra da chave do arco, ou pedra angular, em forma de voluta, duas Vitórias aladas nos tímpanos do arco, a cornija ricamente adornada com mísulas e dentículos e os caixotões em relevo da abóbada. No centro da abóbada encontra-se um relevo com a apoteose de Tito. O ático do arco foi originalmente coroado provavelmente com uma quadriga dourada, e encontra-se a inscrição:

SENATVS

POPVLVSQVE · ROMANVS
DIVO · TITO · DIVI · VESPASIANI · F (ILIO)

VESPASIANO · AVGVSTO

(O Senado e o povo romano ao Divino Tito Vespasiano, filho do Divino Vespasiano)

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Arco de Tito, 81 d.C., Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Arco de Tito, 81 d.C., Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Frisos internos do Arco de Tito, 81 d.C., Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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