As cidades italianas do Renascimento

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Por Marcelo Albuquerque

As cidades italianas se destacam por traçados inovadores e idealistas, como Pienza, Ferrara, Palmanova e o projeto não construído de Sforzinda. Argan argumenta, no livro História da arte como história da cidade, que a renascentista adição hercúlea de Ferrara de Rosseti acrescenta-se à cidade da Idade Média através de um sistema de nexos que não reflete uma contraposição, mas um desenvolvimento[1]. Pienza foi reconstruída a partir de uma aldeia chamada Corsignano, local de nascimento do Papa Pio II, ficando o projeto a cargo de Bernardo Rossellini, na segunda metade do século XV. Ela apresenta uma inédita adoção de planejamento urbano tipicamente renascentista, como os afirmados por Leon Battista Alberti. Ruas sinuosas foram planejadas para não aparentar uma pequenez excessiva da cidade (mesmo que a trama ortogonal seja um dos princípios norteadores do Renascimento) renovando tradições medievais.  Destaca-se em Pienza a praça planejada da Catedral renascentista, a Câmara Municipal, o Palazzo Borgia e o Palazzo Piccolomini.

A praça da Catedral de Pienza. À direita, a câmara municipal. Fonte: Wikipédia. Disponível em: <https://it.wikipedia.org/wiki/Pienza&gt;. Acesso em: 12 abr. 2017.

Ferrara é uma cidade referência no desenho urbanístico do Renascimento, considerada um dos primeiros grandes projetos urbanos da era moderna na Europa. A chamada Expansão ou Adição Hercúlea, para a construção da nova parte da cidade, chamada Arianuova, foi encomendada ao arquiteto Biagio Rossetti, em 1484, pelo Duque Ercole I d’Este. Sua localização fica fora do eixo do velho castelo medieval, com grandes áreas verdes, sem prédios, conhecidos como “jardins” e “pomares”. Possui o título de cidade da Renascença concedido pela UNESCO. As muralhas renascentistas conservam-se em boa parte intactas, com a sua aparência original.

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Castelo Estense, em Ferrara. Fonte: Wikipédia. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Ferrara&gt;. Acesso em: 20 fev. 2017.

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Muralhas Renascentistas de Lucca. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Palmanova foi projetada como uma fortaleza de forma a comportar a tecnologia bélica de seu tempo, em especial a artilharia de canhão, a exemplo das fortificações de Vauban. Ela possui uma forma de estrela com 9 pontas. Sucessivas disputas entre austríacos e venezianos, pela posse de territórios e fronteiras, levaram à sua construção. Em um clima de hostilidade e insegurança, os venezianos decidiram construir a fortaleza em um ponto estratégico, perto da fronteira com os Habsburgos. Em 1593 foi iniciada a sua construção. A fortaleza-cidade conta com dois círculos de fortificações com muralhas, bastiões, fossos e cortinas para proteger as três entradas da cidade. Posteriormente, Palmanova será ocupada pelos austríacos e finalmente pelos italianos no século XIX. A cidade foi proclamada monumento nacional em 1960.

Planta e fotografia de Palmanova. Fonte: Wikipédia. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Palmanova&gt;. Acesso em: 20 fev. 2017.

Sforzinda é um traçado de uma cidade imaginaria, de aproximadamente 1464, por Antonio Averlino dito Il Filaret. O nome da cidade é em honra à família Sforza e ao duque de Milão, Francesco Sforza, uma das famílias mais poderosas da Itália renascentista. A cidade nunca foi construída, e seu projeto continha um plano de oito pontos, obtidos pela sobreposição de dois quadrados girados em 45 °, inscritos dentro de um círculo, que seria o fosso. O seu desenho já antecipa o desenvolvimento de estratégias de defesa e ataque com artilharia pesada. Cada ponto externo possuiria uma torre, enquanto em cada ponto recuado das muralhas possuiria uma porta. Cada porta e cada torre atingem o centro da cidade, em vias lineares, onde se abriria uma praça rodeada por edifícios monumentais. Para a cidade, foram pensados os edifícios mais importantes, como o Palácio do Senhor, as prisões, o hospital e as igrejas.

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Planta de Sforzinda. Fonte: Wikipédia. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Sforzinda&gt;. Acesso em: 20 fev. 2017.

Florença e o quattrocento

Por Marcelo Albuquerque

 

A primeira fase renascentista está focada na cidade de Florença, que oferece a possibilidade de estudos superiores em círculos acadêmicos não associados à Igreja ou instituições tradicionais, mas financiadas pelos ricos banqueiros, como a família Médici.  As artes plásticas e a arquitetura formulam regras de perspectiva linear, reorganizando a representação espacial. A redescoberta de modelos antigos, tanto em arquitetura, pintura e escultura, se baseiam nos princípios de harmonia, proporção e simetria, refletindo a dimensão harmônica do homem na sua relação com a natureza e com a criação divina, bem representada no Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci, um reestudo das proporções conhecidas e aplicadas desde a Grécia Clássica e transmitida por Vitrúvio. A pintura do Renascimento modela-se com a influência da arte de Flandres no início do século XV, dos pintores flamengos, que introduzem um renovado naturalismo na arte e a técnica da pintura a óleo sobre tela, além da introdução dos retratos nos ambientes privados, de forma a enaltecer a figura cívica dos retratados, como veremos mais adiante.

 

A ascensão de Florença como potência comercial, intelectual e artística remonta ao período da Baixa Idade Média, a partir do século X, quando a cidade se tornou município autônomo em 1115, marcada por lutas que se estenderam durante o século XIII, como a disputa entre os gibelinos, partidários do Sacro Império Romano, e os guelfos, a favor do papado romano. Essa política interna não impede que a cidade floresça e se torne uma das maiores repúblicas medievais da Toscana. Após a Peste Negra de 1348, Florença se torna o grande centro de poder da Toscana, superando sua arquirrival Siena, que não conseguirá se reerguer como Florença após a Peste.

 

A partir da década de 1430, a família Médici inicia uma política de mecenato para formar e patrocinar os melhores artistas, arquitetos, escritores, humanistas e filósofos do período, ao longo de décadas, como Filippo Brunelleschi, Michelozzo, Verrocchio, Sandro Botticelli, Leonardo da Vinci, Michelangelo Buonarroti. Maquiavel, personagem importante do século XV, tem sua obra literária, “O Príncipe”, muitas vezes vista como uma legitimação da tortuosidade e também do abuso político. As atividades das academias, patrocinadas pela elite florentina, fora do círculo do ensino tradicional católico, se dividiam em diversas áreas do conhecimento, das quais se destacam as correntes científicas (física, química e história natural) e as relacionadas à filologia e linguagem. Em 1527 os florentinos expulsam os Médici, reestabelecendo uma república, mas em 1532, os Médici retornam como duques de Florença, conquistando a República de Siena em 1555. Em 1569 é criado o Grão-Ducado da Toscana.

 

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Piazza della Signoria: o magnífico Palazzo Vecchio. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Piazza della Signoria: Loggia dei Lanzi. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

O centro político de Florença é a Piazza della Signoria, com o magnífico Palazzo Vecchio, edifício gótico construído sobre um teatro romano, como se vê na figura acima. Em frente, a Loggia dei Lanzi assume um papel de galeria de obras-primas da escultura.  Ao seu lado, a Galeria Uffizi é um dos maiores museus de arte do mundo, reunindo uma das mais importantes coleções de arte ocidental. Foi concebida para abrigar os escritórios da burocracia do Médici no século XVI, os escritórios de ofícios (Ufizzi).

 

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Galeria Uffizi, Florença. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

A catedral gótica de Santa Maria del Fiore protagoniza o grande divisor de águas que marcará o início da era renascentista, com sua majestosa cúpula de Fillipo Brunelleschi (1377-1446). Brunelleschi foi arquiteto, engenheiro, escultor e ourives, e é considerado, ao lado de Masaccio e Donatello, um dos fundadores do Renascimento. A ele credita-se a invenção da perspectiva de um único ponto de fuga, ou perspectiva linear. Depois de sua aprendizagem como um ourives e uma breve carreira como escultor, dedicou-se à arquitetura, após perder o concurso das portas do Batistério para seu rival Lorenzo Ghiberti. Brunelleschi faz um longo estudo arquitetônico das ruínas de Roma, e retorna à Florença para um novo concurso, para a construção da cúpula de Santa Maria del Fiore, enfrentando novamente seu rival Ghiberti.

 

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Santa Maria del Fiore, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Seção e cúpula de Filippo Brunelleschi. Fonte: Wikipédia. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Filippo_Brunelleschi&gt;. Acesso em: 11 out. 2016.

 

Com Brunelleschi nasce a figura do arquiteto moderno, reconcebendo os processos técnicos e conceituais da arquitetura, diferentemente das tradições dos mestres construtores medievais, fortalecendo o papel do projeto arquitetônico e do planejamento da construção. Com Brunelleschi, a arquitetura deixa de se firmar como uma arte mecânica, elevando-se a uma categoria intelectual de arte liberal, fundada na matemática, na geometria e na erudição histórica. Brunelleschi privilegia, na arquitetura, uma pureza na linguagem romana de proporções monumentais, valorizando os arcos e colunas, como visto nas basílicas romanas, ritmos modulares correspondentes à números inteiros, seguindo proporções precisas para todo o edifício. Os elementos decorativos se afastam completamente das tradições do Trecento, retomando a linguagem latina em oposição ao bizantino e ao gótico.

 

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Escultura de Brunelleschi olhando para a sua cúpula da catedral, e Arnolfo di Cambio, em frente a Santa Maria del Fiore. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

Brunelleschi começou a estudar o problema da cúpula de Santa Maria del Fiore, desde o início do século XV. O tambor octogonal foi erguido entre 1410 e 1413, porém uma cúpula tão grande nunca tinha sido realizada com as tradicionais técnicas, com uso de andaimes e cimbramento de madeira, parecendo inviável sua conclusão. Em 1418, foi editado o famoso concurso público para resolver o problema do domo, de forma a detalhar as soluções para as costelas, o cimbramento, as coberturas, os materiais e as ferramentas necessárias. Segundo Argan, em “História da arte como história da cidade”, além dos problemas técnicos de engenharia, a cúpula também deveria se impor, harmonicamente, sobre o espaço urbano, de forma a simbolizar o poder de Florença. Filippo Brunelleschi e seu rival Lorenzo Ghiberti foram nomeados para o empreendimento.

 

A obra da cúpula começou em 1420. O domo é constituído de duas cúpulas, com passarelas e escadas na lacuna entre elas. A obra foi auto sustentada por andaimes aéreos e cimbramento que não se apoiavam diretamente no piso da basílica, proposta que gerava muita desconfiança dos trabalhadores. Mais adiante, Ghiberti deixará de ser protagonista da construção, ao lado de Brunelleschi, por não conseguir resolver problemas estruturais. Brunelleschi assume a chefia de toda a obra, concluindo-a e levando uma parte considerável dos créditos da construção. A cúpula foi edificada em pedra, até os primeiros sete metros e, em seguida, de tijolo, feitas com a técnica “espinha de peixe”, que funciona como uma espécie de anel em espiral autossustentada. A cúpula exterior é constituída de tijolos vermelhos intercalados com oito costelas brancas. A cúpula interior, menor e robusta, suporta o peso da parte exterior. A lanterna, já concebida com elementos clássicos em detrimento do gótico, torna-se um mirante, sendo possível visita-la como um dos principais pontos turísticos de Florença.

 

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Cúpula de Santa Maria del Fiore, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Técnica de construção em alvenaria de Brunelleschi baseada no opus spicatum, no interior da cúpula de Santa Maria del Fiore, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Lanterna renascentista de Santa Maria del Fiore, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Interior da cúpula de Santa Maria del Fiore, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

Outro ponto admirável foi o sistema de guindaste desenvolvido por Brunelleschi para erguer os materiais de construção. Um par de cavalos amarrados a um eixo vertical fazia o sistema girar. O arquiteto aplicou um sistema de guinchos e roldanas com engrenagens derivadas dos utilizados no fabrico de relógios capazes de aumentar a sua força, permitindo que se alternasse a subida e descida de materiais sem alterar a direção dos cavalos. Leonardo da Vinci estudou esses sistemas e aplicou em algumas de suas famosas criações.

 

O Asilo dos Inocentes, iniciado em 1419, é considerado o primeiro edifício construído de acordo com cânones clássicos. Serviu como orfanato e complexo hospitalar. As longas varandas agem como elementos intermediários entre o hospital e a praça, compostas por abóbadas de nervuras, arcos e colunas de capitéis coríntios. As cores austeras, de gesso branco e pedra cinza, tornaram-se um traço harmonioso e limpo, característico do Renascimento florentino. Os medalhões de cerâmica, sobre cada coluna das varandas, foram acrescentados por Andrea della Robbia, sobrinho de Luca della Robbia, em 1490, representando as inocentes crianças pequenas.

 

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Asilo dos Inocentes, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Asilo dos Inocentes, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Asilo dos Inocentes, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

Em 1429 foi confiado a Brunelleschi a reconstrução do claustro franciscano de Santa Croce que, mais tarde, tornou-se a capela de Pazzi, financiado por Andrea de Pazzi. O edifício foi concluído após 1470, por Giuliano da Maiano. Sua medida da largura, altura e diâmetro da abóbada remetem a um cubo imaginário encimado pela cúpula. Foram adicionados dois braços laterais, cobertos por uma abóbada de berço, além de um altar na abside. Assim como o Asilo dos Inocentes, a ornamentação é nobre e austera, com gesso branco e pedras cinzas, com medalhões de cerâmica de Luca della Robbia. Seu pórtico da fachada frontal remete a um arco triunfal, sustentado por colunas e um grande arco de volta perfeita.

 

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Capela da família Pazzi, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Medalhões de cerâmica de Luca della Robbia. Capela da família Pazzi, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Brunelleschi: Capela da família Pazzi, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Brunelleschi: Capela da família Pazzi, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Brunelleschi: nave central e lateral de San Lorenzo, Florença, 1441-1481. Podemos observar a composição derivada do Asilos dos Inocentes nas arcadas das naves. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

Leon Battista Alberti, célebre artista, arquiteto, historiador e filósofo do Renascimento, é autor dos tratados De Re Aedificatoria (1443-52), De Pictura (1540) e De Statua (1568), que apresentam os princípios estéticos do pensamento renascentista, baseados no estudo da Antiguidade Clássica e na objetividade da observação da natureza. Isso não significa uma imitação direta da natureza objetiva, mas o modelo ideal de beleza de caráter neoplatônico, como a harmonia de todas as partes em relação ao todo, proporção e escala humana. Alberti estudou ruínas e objetos artísticos da Antiguidade, revalorizando o Tratado de Arquitetura do romano Vitrúvio. Entre as discussões de Alberti estava o efeito social da arquitetura, sobre a cidade planejada e a paisagem.

 

De Alberti, para este capítulo, destaco a basílica de Sant’Andrea em Mantova. Seu desenho é renascentista por excelência, sendo concluída anos após a morte de Alberti. Sua fachada remete aos arcos triunfais romanos, com um arco único, baseado em arcos triunfais antigos como o Arco de Tito ou o Arco de Trajano. Sob o arco forma-se uma espécie de pórtico com abóbada de berço e caixotões, marcando o ponto entre o interior e exterior. O arco é ladeado por pilastras coríntias, com paredes divididas entre janelas e nichos. A fachada está inscrita em um quadrado. Sobre o frontão vemos um arco que se afasta da fachada, apontando a altura da nave, enfatizando a monumentalidade e iluminação da nave, impedindo que a luz incida diretamente no interior da igreja. O interior forma uma cruz latina, com uma única nave de abóbada de berço e caixotões, com capelas laterais com base retangular e emolduradas por arcos de volta perfeita, acompanhando a fachada. O cruzeiro possui uma cúpula. O altar possui abside profunda que encerra o espaço da nave. A cripta contém relicários com terra que, segundo a tradição, são encharcadas com o sangue de Cristo colhido pelo soldado romano Longinus.

 

Sant’Andrea em Mantova. Fonte: Wikipédia. Disponível em: <https://it.wikipedia.org/wiki/Basilica_di_Sant%27Andrea_(Mantova)&gt;. Acesso em: 11 out. 2016.

 

Alberti é um dos intelectuais responsáveis pela elevação da arquitetura, pintura e escultura para as artes liberais, consideradas artes mecânicas durante a Idade Média. Junto ao escultor Lorenzo Ghiberti, avançaram para uma teoria artística elaborada na distinção de várias facetas do processo artístico. Ghiberti produziu pesquisas no campo da ótica, no comportamento da luz em diversas circunstâncias e nas inter-relações do olho e cérebro na percepção. Alberti é o pioneiro na literatura artística a constituir a pintura como objeto de teoria e doutrina sistematizadas, montando seu discurso baseado nas artes liberais com geometria e retórica. Ele dividiu a pintura em três partes: circunscrição (desenho das formas), composição e “recepção das luzes” (receptio luminum), que inclui a cor. As cores, para Alberti, variam em razão da luz. As cores primárias seriam quatro, associadas aos quatro elementos: vermelho (fogo), azul (ar), verde (água) e cinza (terra), e todas as outras cores seriam misturas dessas. Ele preocupou-se em descrever os elementos cognoscíveis da perspectiva linear e aérea e exigia que o pintor fosse culto nas artes liberais, estudasse os poetas, os gestos, as expressões e os movimentos do corpo humano.

 

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Leon Batista Alberti: Palazzo Rucellai. Fonte: Wikipédia. Disponível em: <https://it.wikipedia.org/wiki/Leon_Battista_Alberti&gt;. Acesso em: 12 abr. 2017.

 

O Palazzo Rucellai (1446-1451) possui desenho da fachada com formas clássicas, aplicando o rusticismo na alvenaria, coroado com uma imponente cornija. O embasamento baseia-se no opus reticulatum romano. É composto de três níveis, divididos por cornijas e por pilastras que sobrepõe as diferentes ordens clássicas; assim como o Teatro de Marcelo e o Coliseu, comentados anteriormente (o primeiro piso é dórico, o segundo jônico e o terceiro coríntio).  A medida em que a parede se eleva, a cantaria vai se tornando mais polida e bem-acabada, se afastando do rusticismo do primeiro nível.  As alturas das pilastras diminuem gradualmente de tamanho em direção aos andares superiores, criando uma sensação de monumentalidade.

 

Assim como o Palazzo Rucellai, o Palazzo Medici-Ricardi (1444-64), de Michelozzo, possui três níveis sobrepostos com tratamentos diferentes, sendo o primeiro nível rusticado com janelas inseridas em arcos. O projeto original foi encomendado a Brunelleschi, porém os contratantes repassaram à Michelozzo a edificação, alterando o desenho do edifício. O pátio interno possui colunas coríntias, como um peristilo romano. O edifício estabelece um padrão cívico no uso dos elementos clássicos com fachadas imponentes, como o Palazzo Medici-Ricardi de Michelozzo.

 

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Palazzo Medici Riccardi, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Palazzo Medici Riccardi, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Michelozzo. Pátio do Palazzo Medici-Ricardi. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Janelas ajoelhadas (finestre inginocchiate), atribuídas a Michelangelo (1517). Palazzo Medici Riccardi, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

Outro palácio que merece destaque é o Palazzo Strozzi, também em Florença. De forma cúbica, foi concebido em torno de um pátio central, com três andares. Sua fachada remete aos palácios anteriores, tendo o piso térreo janelas retangulares, enquanto os andares superiores possuem janelas arqueadas, sobre bordas serrilhadas.

 

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Palazzo Strozzi. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Palazzo Strozzi. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Palazzo Strozzi. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Palazzo Strozzi. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Pátio interno do Palazzo Strozzi. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

Santa Maria Novella possui o desenho renascentista da fachada da nave principal, por Alberti, edificada entre 1448 a 1470, reformando a antiga fachada medieval, conservando o nível mais baixo com os antigos seis nichos góticos. Foram empregados os mármores policromados e o desenho tradicional toscano das igrejas florentinas, como San Miniato al Monte e o Batistério de Florença. A janela ocular também foi preservada.

 

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Santa Maria Novell, Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Santa Maria Novella. Nave central e naves laterais. Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Fachada de Santa Croce. Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

Entre as pontes que cruzam o rio Arno, destaca-se a Ponte Vecchio, única no mundo, com suas características lojas de joalharia construídas sobre a ponte. A parte superior das lojas é atravessada pelo Corredor Vasari, uma passagem que liga o Palazzo Vecchio ao Palácio Piti, do outro lado do rio, como forma de garantir privacidade e segurança aos governantes de Florença.

 

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Ponte Vecchio vista de dentro da Galeria dos Uffizi. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

Um dos adventos mais importante para a pintura do Renascimento foi o desenvolvimento da tinta a óleo a partir da linhaça, técnica criada nos Países Baixos e utilizada pelos irmãos Van Eyck. O fácil transporte da pintura, que agora podia ser enrolada em seu suporte de tecido, permitiu o intercâmbio entre escolas de pinturas italianas e flamengas, ampliando o conhecimento dos artistas em diversos pontos da Europa simultaneamente. A tinta a óleo produz mais brilho que as têmperas, acentuando sensivelmente a cor, permitindo maior grau de detalhamento, que unido ao pensamento filosófico da época, possibilitou a conquista do naturalismo por parte dos pintores. Isto amplificou a arte do retrato cívico, uma das mais importantes contribuições da pintura renascentista.

 

Mona Lisa, 1503-07. Óleo sobre tela. Museu do Louvre, Paris. À direita, Dama com Arminho, de 1485.  Museu Czartoryski, Cracóvia. Fonte: Wikipédia”. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Leonardo_da_Vinci&gt;. Acesso em: 11 out. 2016.

 

Leonardo da Vinci é um paradigma da arte renascentista, e sua trajetória na oficina de Verrocchio como aprendiz nos esclarece muito sobre a formação de um artista nesse período. A oficina projetava, realizava e ensinava atividades diversas, como pinturas e esculturas em variadas técnicas, as chamadas “artes menores” e decorativas, trabalhos de carpintaria, mecânica e arquitetura, onde o aluno e aprendiz podia ser formado em várias técnicas. A geração de Leonardo que estudou na mesma oficina incluiu grandes mestres como Sandro Botticelli, Perugino e Ghirlandaio. Leonardo, mesmo depois de ter reconhecida sua independência como artista, colaborou com Verrocchio ainda por alguns anos. Conta-se que, segundo a tradição, Verrocchio, ao ver o anjo da esquerda pintado majestosamente por Leonardo, na obra O Batismo de Cristo, de 1472 a 1475, pintada a duas mãos, decidiu abandonar a pintura, ao ver que seu talentoso discípulo o havia superado.

 

Visitantes na Galeria Uffizi em frente ao O Batismo de Cristo, 1472-1475, de Verrocchio e Leonardo da Vinci. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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A Anunciação, de 1472-1475, de Leonardo da Vinci, protegida com blindagem de vidro. Galeria Uffizi, Florença. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

Para Leonardo da Vinci, assim como Alberti, a pintura deve se afastar das artes mecânicas para aproximá-la das artes liberais, na qual o desenho é o meio intelectual predominante, da mesma forma que o seu ensino. A escultura, do seu ponto de vista, permaneceria uma arte mecânica, por fazer transpirar e exaurir fisicamente, situação modificada posteriormente pelo gênio de Michelangelo, adversário declarado das opiniões de Leonardo. Sendo assim, os artistas do Renascimento gozaram do prestígio intelectual.

 

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A Última Ceia, de Leonardo da Vinci. 1495-98. Santa Maria delle Grazie, Milão. Fonte: A Última Ceia. In: Site “Wikipédia”. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Leonardo_da_Vinci&gt;. Acesso em: 11 out. 2016.

 

No “Tratado de Pintura”, Leonardo da Vinci faz investigações sobre a importância dos estudos da natureza, da perspectiva aérea, a preocupação com a modelagem tonal (sfumato), o estudo das sombras no planejamento e o desejo de experimentar novas técnicas de pintura. Essas novas técnicas incluíam tentativas de pintura de afresco à óleo, fixando a tinta através de calor, mas que se mostrou desastrosa, como ocorreu no célebre afresco da Última Ceia. Suas observações dos efeitos da cor prenunciam fundamentos do Impressionismo. Sua posição é aristotélica e sua crença está na observação e representação da realidade sensível e visível como forma de obtenção do conhecimento.

 

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O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli. Fonte: Wikipédia. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Uffizi&gt;. Acesso em: 11 out. 2016.

 

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Visitantes na Galeria Uffizi em frente ao Nascimeto de Vênus, de Botticelli. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

Michelangelo inicia seus estudos em 1487, aos doze anos, na oficina de Domenico Ghirlandaio, momento no qual conhece os mestres italianos e alemães do desenho e da pintura, especialmente do trecento em diante. Mais adiante, começou a frequentar e estudar no jardim de San Marco, a Academia de Lorenzo, o Magnífico, em Florença, onde teve contato com grandes coleções de esculturas antigas dos Médici, junto a outros jovens talentosos, além do contato com as artes liberais e as artes mecânicas tradicionais e estudos contemporâneos do Renascimento. Ludovico passa a ser o protetor e mecenas do jovem gênio. Assim foi capaz de conhecer importantes personalidades de seu tempo e principais clientes, dentro e fora da Igreja.

 

Após a morte de seu patrono e seu colapso político, Michelangelo juntou-se aos novos valores pregados por Savonarola, convicto na reforma da Igreja, cujos valores estavam ameaçados devido à política contemporânea, à arte paganizante de seu tempo e aos costumes em geral. Ao ser condenado na fogueira, o movimento de Savonarola se dissipa e Michelangelo em breve iniciará suas viagens para fora de Florença, concebendo diversas obras primas, estabelecendo-se prioritariamente em Roma, a partir de 1496. No Vaticano, Michelangelo estuda as coleções de esculturas antigas e acompanha escavações, restaurando algumas obras. O período helenístico grego influenciará decisivamente a obra do gênio. Desse período vem a encomenda da Pietà em mármore de Carrara para a igreja de Santa Petronilla, que hoje está na basílica de São Pedro no Vaticano. O grupo escultórico inova em relação à escultura italiana tradicional de Pietà, adotando a composição piramidal. O acabamento é primoroso, desde os pequenos detalhes que produzem o efeito de mármore translúcido e maleável. Ela é considerada como sua primeira grande obra-prima e marca o início de sua autoconsciência como gênio.

 

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Pietà, de Michelangelo. Mármore. Basílica e São Pedro, Vaticano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

Michelangelo volta para Florença em 1501 e realiza diversas obras na Toscana, como estátuas sacras para Siena e Florença, aproveitando o prestígio que já gozava devido aos seus anos em Roma. No mesmo ano, começa a trabalhar no “Gigante”, e em três anos completa o Davi, encomendado para a área externa da abside do Duomo de Florença. O artista retrata o herói de forma incomum, em relação à iconografia e à tradição: nu, com aparência calma e serena, a ponto de reagir contra Golias. O Davi é associado ao poder da republica de Florença diante de seus adversários.  Torna-se imediatamente uma obra-prima e símbolo da cidade, sendo deslocada para a Piazza della Signoria. Uma cópia foi realizada, ficando ao livre, enquanto o original está preservado na Galeria da Academia de Florença.

 

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Davi de Michelangelo, Galeria da Academia de Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

A partir do século XVI, Roma ressurge na sua grandeza como a capital dos papas, e se tornará o centro erudito das artes, particularmente nos trabalhos de Michelangelo e Rafael no Vaticano. Rafael Sanzio (1483-1520) inicia suas atividades com a presença de Perugino e sua oficina. Rafael demonstrou interesse nos afrescos e esculturas de Michelangelo, e a história apresenta grandes disputas entre Bramante e Rafael contra Michelangelo. Rafael inclui um retrato de Michelangelo e de Leonardo da Vinci no afresco A Escola de Atenas e em outros trabalhos posteriores. Rafael, profundo admirador de Michelangelo e Leonardo, tornou-se a figura que compôs a tríade de gênios pintores da Renascença.

 

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Rafael. A Escola de Atenas, 1509. Vaticano. Fonte: Wikipédia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Rafael&gt;. Acesso em: 11 out. 2016.

 

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Ressurreição de Cristo, c. 1499/1502. Museu de Arte de São Paulo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2016.

 

 

[1] ARGAN, 1998, p. 74.

 

Renascimento: panorama

Por Marcelo Albuquerque

A arte e a arquitetura renascentista foram desenvolvidas ao longo dos séculos XV e XVI, apresentando um rompimento com as tradições medievais, porém não totalmente separados dos costumes e valores medievos, mas com um consciente rompimento com a estética gótica. São inseridas novas relações entre a arte e arquitetura, promovendo a imagem dos personagens como profissionais liberais, portadores de uma erudição à altura dos grandes gênios da história.  Esses personagens são orientados na compreensão e valorização das linguagens da Antiguidade Clássica sem, no entanto, fazer apenas cópias dos modelos antigos. O século XV eleva as figuras de Filippo Brunelleschi, Masaccio, Donatello e Alberti, que definem os princípios de uma arte e arquitetura classicistas, através de tratados, com maior naturalismo na pintura, idealismo e desenvolvimento da perspectiva, aliados às grandes descobertas empreendidas pelo globo terrestre.

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Mapa da Europa em 1500. Fonte: https://www.ime.usp.br/~tycho/participants/psousa/cursos/materiais/mapas_historicos.html. Acesso em: 21 abr 2018.

Observaremos que, para muitos autores, a origem do Renascimento é apontada na construção do domo da Catedral de Santa Maria del Fiore por Brunelleschi, em Florença. Posteriormente, Leonardo Da Vinci se tornará, certamente, um dos personagens mais famosos e populares desse período. O início do século XVI apresenta o desenvolvimento e maturidade do Renascimento, tendo como ícones Bramante e Rafael e Michelangelo, junto aos personagens das escolas coloristas de Veneza, como Ticiano. Nesse instante, o Renascimento abre caminho para o Maneirismo. Se destacam arquitetos como Andrea Palladio, o próprio Michelangelo e Giulio Romano. Considera-se que o Maneirismo seja dotado de pensamentos anticlássicos que reformulam as normas da linguagem clássica, ao mesmo tempo em que a glorifica, conferindo uma grande autonomia criativa. O Maneirismo costuma ser visto como uma dinâmica atrelada ao Renascimento, porém reivindicando um novo modelo “à maneira” clássica. O Renascimento também se caracteriza pela propagação das ideias italianas pela Europa, considerando um Renascimento distinto em diversas regiões do subcontinente europeu, como o Renascimento espanhol, o francês, o flamengo e o britânico, entre outros.

O Renascimento desenvolve-se na Itália do final da Idade Média, a partir de Florença, no século XV, marcando o início da era moderna, estendendo-se até o século XVI. Ele é oriundo dos desenvolvimentos do século XIII e XIV, conhecidos como Duecento e Trecento. Renova-se um interesse pelos estudos clássicos da filosofia, literatura e artes, contextualizando-os na sua contemporaneidade. Não significa que a Idade Média havia abandonado estes estudos, pelo contrário, na realidade, havia-se conservado muito da tradição clássica pelos eruditos católicos, pelos mosteiros e pelas universidades em geral. As valiosas contribuições orientais, através dos árabes e dos eruditos gregos e bizantinos refugiados da recém conquistada Constantinopla, pelos turcos otomanos, inundaram a Europa Ocidental de conhecimentos e referências da Antiguidade e da produção intelectual do período medieval. Porém, durante a Idade Média, a Europa passou por alguns momentos de “renascimentos” da cultura clássica, como o empreendido no período carolíngio, no Otoniano, e pela filosofia escolástica, mas nenhuma com as características do Renascimento italiano do século XV. Sendo assim, o ano de 1453, data da conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos, pondo fim ao Império Bizantino, marca o encerramento da Idade Média e início do Renascimento. O período é marcado pelo surgimento e consolidação de estados modernos, como as monarquias nacionais da França, Inglaterra e Espanha, sendo que esta última expulsa de vez os árabes da península Ibérica e patrocina as viagens dos descobrimentos ao lado dos portugueses. A descoberta do Novo Mundo promove uma nova ordem econômica e social, deslocando consideravelmente o eixo comercial do Mediterrâneo para o Atlântico, advindas das expansões coloniais, fomentando a economia mercantilista.

O termo “renascimento ” foi usado por Giorgio Vasari, em 1550, em seu tratado Vidas dos melhores arquitetos, pintores, escultores italianos de Cimabue até à nossa época, para indicar um ciclo que, a partir de Giotto, se estabeleceria com Masaccio, Donatello e Brunelleschi no rompimento com a estética bizantina e retorno para a romana.  Para Vasari, o renascimento culmina em Leonardo e Michelangelo, capazes de superar os próprios antigos. O termo “Renaissance” se define como resultado da historiografia do século XIX, descrita por Jules Michelet e Jacob Burckhardt.

Na filosofia, o ressurgimento do neoplatonismo e do hermetismo[1] será fundamental para este florescimento das expressões artísticas renovadas no interesse na Antiguidade. A partir dessas referências, desenvolve-se um ambiente na cidade de Florença, em especial, para as ideias de humanismo, nascido da literatura do século XIV, com renovado interesse em estudos clássicos, especialmente por Boccaccio, Dante Alighieri e Francesco Petrarca. Estes autores foram responsáveis por entender uma nova mentalidade emergente, diferente do período que corresponde ao que chamamos de medieval, situado entre seu tempo e o Império Romano do Ocidente.

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Panorama de Florença a partir da Piazzale Michelangelo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

No campo religioso, além da medieval disputa entre cristãos e muçulmanos, a partir do século VII, e do cisma entre católicos e ortodoxos em 1054, a Reforma Protestante promove um novo cisma dentro da Igreja Católica e no Ocidente, abrindo caminho para as novas correntes protestantes, como a Calvinista e a Luterana. A reforma propunha uma renovação da cristandade e da própria Igreja Romana em si, marcada pelas denúncias de corrupção, extravagancias, decadência e divergências ideológicas e políticas complexas.

Tratados matemáticos gregos foram traduzidos no século XVI, influenciando os estudos de astronomia de Nicolau Copérnico e Kepler, e, posteriormente, no período barroco, os estudos de Galileo. A geografia foi transformada por novas informações científicas e pelas grandes navegações. Entretanto, nada disso seria possível sem a invenção da prensa de Gutenberg, no século XV, revolucionando o fluxo do conhecimento e a difusão de informações, aumentando o número de livros em circulação.

Sobre as fortificações das cidades renascentistas, vale o exemplo de cidades como Lucca. Os avanços no uso da pólvora revolucionaram as táticas militares entre 1450 e 1550, introduzindo a artilharia no campo de batalha, inutilizando os sistemas medievais de muralhas de castelos e cidades, que tiveram que se readequar à novidade, culminando nos desenhos das muralhas Vauban do século XVI.

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Muralhas Renascentistas de Lucca. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

[1] O Hermetismo se baseia no Caibalion (tradição ou transmissão), uma compilação comentada anônima do Corpus Hermeticus e Tábua de Esmeraldas.  Baseia-se nas Sete leis herméticas aplicadas ao homem e ao universo. O deus Thoth e Ibis transformados em Hermes Trismegistus, “três vezes sábio”, o que leva os conhecimentos divinos ao homem. Se relaciona com o Livro dos Mortos egípcio, compilação de vários papiros de escribas. Acredita-se que Hermes Trismegistus seja um nome genérico, relacionado à vários personagens históricos. Os Mistérios herméticos são conhecimentos passados apenas para virtuosos, nos ambientes iniciáticos da Antiguidade. Marcilio Ficcino lidera em Florença a Academia Platônica Florentina, que estuda o Hermetismo, e o Domo de Siena apresenta uma figura de Hermes Trismegistus, evidenciando uma relação medieval entre essa figura e conhecimentos eruditos do Catolicismo, porém será considerado herético posteriormente (gnose).

Cor e os tratados do Renascimento

Por Marcelo Albuquerque

O arquiteto e humanista Leon Battista Alberti e o escultor Lorenzo Ghiberti avançaram para uma teoria artística mais elaborada na distinção de várias facetas do processo artístico. Ghiberti produziu sérias pesquisas no campo da ótica, no comportamento da luz em diversas circunstâncias e nas inter-relações do olho e cérebro na percepção. Cennini se concentra na oficina de receitas e preceitos técnicos das cores e tintas. Segundo Leon Kossovitch, o texto de Alberti é o primeiro na literatura artística a constituir a pintura como objeto de teoria e doutrina sistematizadas, montando seu discurso com geometria e retórica (artes liberais)[1]. De acordo com Kossovitch, as cores são pouco desenvolvidas em Alberti, assim como nos autores do séc. XVI em geral, tornando-se objeto de discussão mais aprofundado no século seguinte. Reconhece a presença, no Quattrocento, da distinção pliniana de cores austeras e floridas, as relações de composição entre as cores e os preceitos de substituição do ouro bizantino pelas tintas[2]. Alberti dividiu a pintura em três partes: circunscrição (desenho das formas), composição e “recepção das luzes” (receptio luminum), que inclui a cor. As cores, para Alberti, variam em razão da luz. Branco e preto expressam luz e sombra, e todas as outras cores variam de acordo com a luz e sombra aplicadas nelas. Mas não são cores verdadeiras, e sim moderadoras das outras cores, formando espécies. As cores primárias seriam quatro, associadas aos quatro elementos: vermelho (fogo), azul (ar), verde (água) e cinza (terra). Todas as outras seriam misturas dessas. Os cinzas são entendidos como as cores e detritos da terra, sendo eles a chave para a coerência tonal de uma composição[3]. Ele preocupou-se em desenvolver os elementos cognoscíveis da perspectiva aérea e exigia que o pintor fosse culto nas artes liberais, estudasse os poetas, os gestos, as expressões e os movimentos do corpo humano[4].

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Cores primárias de Alberti e sua relação com os quatro elementos. Marcelo Albuquerque, 2013.

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Cores primárias de Leonardo, de acordo com Pedrosa. Marcelo Albuquerque, 2013.

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Grand Tour

Por Marcelo Albuquerque

Viagens à Itália, em especial para estudar a Antiguidade, sempre pautaram roteiros de artistas, arquitetos e estudiosos. O Grand Tour era um tipo de viagem tradicional que percorria a Europa central, com destino final na Itália, realizada em geral por jovens europeus e americanos das classes mais abastadas ou que eram apadrinhados com bolsas de estudo, com o objetivo de complementar a educação erudita, especialmente nas artes, arquitetura, culturas regionais, línguas estrangeiras e política. As viagens tornam-se populares em meados do século XVII, continuando até o surgimento de um itinerário fixo decorrente do transporte ferroviário em larga escala, em meados do século XIX. Esse período é considerado como o início da ideia de turismo de massas, principalmente após as viagens ferroviárias. Esses viajantes compravam e encomendavam pinturas das ruínas e dos locais visitados, fomentando o gosto historicista dos séculos XVIII e XIX, como vemos nas obras de Piranesi ou Panini e nos antiquários locais.

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Viagem à Itália, de Goethe. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Os pontos máximos e sofisticados do Grand Tour abordavam o legado cultural e erudito da Antiguidade Clássica greco-romana, medieval e renascentista, oferecendo a oportunidade única e rara de ver obras de arte emblemáticas e peças musicais inéditas. Os roteiros eram semelhantes aos percursos habituais de peregrinações religiosas católicas e protestantes, porém sem o caráter religioso. Desde os tempos de Albrecht Dürer ao barroco, essas viagens eram consideradas essenciais para os jovens artistas e para suas formações acadêmicas na pintura, escultura e arquitetura. Outro fator importante para o interesse no Grand Tour foram os impulsos neoclássicos com as primeiras escavações arqueológicas das cidades romanas de Herculano e Pompeia, a partir de 1738. Entre as obras de grande prestígio, decorrente dessas viagens, está Viagem à Itália, de Goethe. O pensador alemão, em sua passagem pelo vêneto, demonstra sua admiração pela obra de Palladio:

(…) De todos os lados, porém, a Rotonda apresenta uma visão magnífica. Sua massa central, em conjunto com as colunas à frente, movimenta-se com grande diversidade aos olhos dos que passeiam pela redondeza, e o proprietário, desejoso de legar um grande fideicomisso e, ao mesmo tempo, oferecer aos sentidos um monumento a lembrar-lhe a riqueza, decerto teve ali sua intenção realizada. E assim como, vista de qualquer ponto da região, a edificação apresenta-se magnífica, também a visão que se descortina a partir de seu interior é das mais agradáveis (GOETHE. Viagem à Itália. 1786-1788, p. 65).

O célebre historiador Edward Gibbon também teceu elogios ao Grand Tour como forma de obtenção de conhecimentos essenciais para os historiadores e eruditos em geral.

Viagem à Itália – Sugestão de roteiro – 12 dias

Por Marcelo Albuquerque

Roma

DIA 01: COLISEU – FÓRUM – PALATINO

Coliseu (comprar Romapass ao chegar em Roma). Arco de Constantino. Fórum Romano: Antiquarium Forense: museu do fórum. Junto ao Templo de Vênus e Roma. Arco de Tito. Via Sacra. Basílica de Constantino. Templo de Antonino e Faustina. Arco de Sétimo Severo. Templo de Saturno. Casa das Virgens Vestais. Templo de Vesta. Cúria. Palatino: Domus Flavia. Domus Augustana. Casa de Lívia. Stadium. Templo de Cibele. Cabanas de Rômulo. Museu do Palatino, Jardins Farnese. Fórum de Trajano: Fórum de Cesar, Augusto e Nerva. Fórum e Mercado de Trajano. Coluna de Trajano. Torre dele Milizie. Casa dos Cavaleiros de Rodes.

DIA 02: CAMPIDOGLIO – FÓRUM BOÁRIO – TRASTEVERE

Piazza Venezia. Monumento Vittorio Emanuelle II: subida ao mirante. Insula. Scalinata dell’Aracoele. Santa Maria in Aracoele: antigo templo de Juno. Museus capitolinos. Palazzo Nuovo, Palazzo dei Conservatori e Tabularium. Caminhada pelas bases do Capitolino e Palatino. Teatro de Marcelo – Templo de Apolo – Pórtico de Otavia. Nossa Senhora da Consolação – via de San Teodoro. Santa Anastasia al Palatino. Circo Massimo. Santa Maria in Cosmedin. Fórum Boário: templos de Portuno e Hercules. Boca da Verdade. Arco de Jano. São Jorge Velabro. Vista do Tibre para a Ponte Rotto e Ponte Palatino. FIM DE TARDE: Trastevere: bares e restaurantes. Santa Maria in Trastevere.

DIA 03: PIAZZA NAVONA – PANTEÃO – FONTANA DE TREVI

Il Gesu: ícone de igreja jesuíta e barroca. Largo da Torre Argentina. Sant Andrea della Vale. Piazza Navona. Fonte dos Quatro Rios – Bernini. St Agnese – Borromini. San Luigi dei Francesi – Caravaggios. Palazzo Madama – fachada – Senado italiano. Santo Ivo alla Sapienza – Torre em espiral – Borromini. Panteão. Piazza della Minerva – Elefante de Bernini – Santa Maria sopra Minerva. Caminhada pela via dei Pastini – Templo de Adriano. Coluna de Marco Aurélio. Fontana de Trevi.

DIA 04: VATICANO

Museus Vaticanos (maior parte do dia – comprar os ingressos com antecedência pela internet). Piso inferior: Museu Egípcio. Museu Pio-Clementino. Museu Pio-Cristão. Capela Sistina. Biblioteca do Vaticano. Bracio Nuovo. Museu Chiaramonti. Sala da Cruz Grega. Sala Redonda. Pinacoteca. Museu Gregoriano Profano. Piso superior: Salas de Rafael – Academia de Atenas. Museu Etrusco. Galeria das Tapeçarias. TARDE: Basílica de São Pedro. Scavi: subsolo da basílica de São Pedro (reservar antes). Subida até a cúpula de Michelangelo. Fim da tarde: passeio no entorno do Castelo de Santo Ângelo (se puder entrar melhor).

DIA 05: QUIRINAL – PIAZZA DI SPAGNA: DESTAQUE PARA A ARTE E ARQUITETURA BARROCA

Galeria Borghesi. Termas de Diocleciano. Basílica de Santa Maria degli Angeli (Michelangelo). Museu Nacional Romano. Santa Maria dela Vitoria – Êxtase – Bernini – Fontana di Mosé. Via alle Quattro Fontane – Palazzo. Viminale. San Carlo alle Quattro Fontane – Borromini. Piazza dei Spagna. Trinita dei Monti – Panorâmica de Roma. Piazza del Popolo. Santa Maria in Montesanto e dei Miracoli. Santa Maria del Popolo – Caravaggios. Porta del Popolo.

DIA 06: AVENTINO – TERMAS DE CARACALA – VIA APPIA – CATACUMBAS DE CALISTO (PASSEIO DE VAN)

Basílica de Santa Sabina. Parque de Santo Alessio: vista de Roma. Termas de Caracala. Via Appia. Igreja Quo Vadis. Catacumbas de Calixto. Parque dos Aquedutos.

Siena

DIA 07: SIENA

Catedral. Biblioteca Piccolomini. Museu do Domo. Batistério San Giovanni. Piazza del Campo. Palazzo Publico. Basílica de San Domenico. Tarde livre.

DIA 08: SIENA – MONTERIGGIONE – SAN GIMIGNANO – FLORENÇA

Florença

DIA 09: SANTA MARIA DEL FIORE – PIAZZA DELLA SIGNORIA – PONTE VECCHIO – PIAZZALE MICHELANGELO

Santa Maria del Fiore. Domo de Brunelleschi. Piazza della Signoria. Palazzo Vecchio: museu e torre. Corredor Vasari. Ponte Vecchio. Palazzo Piti – fachada (se tiver tempo, entrar nos jardins de Boboli). Piazzale Michelangelo: pôr-do-sol.

DIA 10: GALLERIA DEGLI UFFIZI – SAN LORENZO (CAPELA MEDICI)

Galleria degli Uffizi. San Lorenzo. Capela Medici. Palazzo Medici-Ricardi.  Santa Maria Novela. Palazzo Rucellai – fachada. Santa Croce. Capela Pazzi – Brunelleschi. Tarde Livre. Galleria dela Academia (Davi de Michelângelo) – opcional.

DIA 11: FLORENÇA – PISA – LUCCA

Veneza

DIA 11: PIAZZA DE SAN MARCO – PONTE DO RIALTO

Vaporetto passando pelo Grande Canal completo e Praça de São Marcos. Basílica de São Marcos. Ponte dos Suspiros. Piazza San Giovanni e Paolo. Estátua equestre de Verocchio. Santa Maria dei Miracoli. Ca D’Oro. Caminhada até a Ponte do Rialto.

DIA 12: DORSODURO

Basílica Santa Maria dela Salute. Collezione Peggy Guggenheim. Academia de Belas Artes. Grande Canal. Tarde livre.

DIA 13: RETORNO

O Tempietto de Bramante e o Gianicolo

Por Marcelo Albuquerque

O Tempietto, no monte Gianicolo, antiga colina de Roma, dentro do complexo de San Pietro in Montorio, foi construído por Donato Bramante entre 1502 e 1509. É uma grande joia arquitetônica do Renascimento inspirado no tholos clássico, conhecido por sua investigação proporcional e geométrica na relação entre as partes. Construído no meio de um dos pátios do mosteiro, é composto de uma colunata dórica de granito cinza, com entablamento com frisos e decorado com métopas e triglifos. O templo, muito pequeno, tem forma circular e um corpo cilíndrico com diâmetro de apenas 4 metros, pois tem uma função puramente simbólica e memorial, mais do que um espaço dedicado às funções litúrgicas. A forma cilíndrica foi cuidadosamente transformada no interior, com altos e profundos nichos, quatro dos quais recebem pequenas estátuas dos evangelistas, enquanto no altar está uma estátua de São Pedro. O suntuoso piso é feito inteiramente com azulejos policromos de mármore, em estilo cosmatesco medieval, mas que havia voltado à moda no final do século XV. A cúpula foi projetada em concreto e tomou como modelo o Panteão, colocada sobre um tambor decorado por pilastras formando um sobreposto com as colunas. Sob o templo, há uma cripta também circular, cujo centro indica o local onde foi plantada a cruz do martírio de São Pedro. A ideia de Bramante nasceu do desejo de criar um edifício que iria seguir o exemplo das primeiras e pequenas construções circulares cristãs usadas geralmente como martirya, fundamentadas no tholos greco-romano. A influência do pequeno templo é colossal, vista na cúpula da Basílica de São Pedro, de Michelangelo, e no Capitólio, em Washington DC, ou mesmo no Panteão, em Paris.

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Tempietto de Bramante. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Tempietto de Bramante localiza-se no monte Gianicolo (Janículo, em português), antiga colina de Roma, dentro do complexo de San Pietro in Montorio. A colina não faz parte do grupo das sete colinas tradicionais, ligadas às origens de Roma. O nome da colina, segundo a tradição, deriva do deus Janus, o deus de duas faces, ainda dos tempos dos etruscos. A colina não fazia parte da antiga Muralha Servia, mas foi incluída parcialmente nas Muralhas Aurelianas. Na encosta oriental que desce para o rio Tibre localiza-se o distrito histórico de Trastevere, enquanto a ocidental leva ao bairro moderno de Monteverde. É um dos pontos turísticos mais atrativos da cidade, com vistas panorâmicas da cidade velha, abrigando monumentos arquitetônicos, igrejas e fontes. Nos tempos antigos estava coberta de bosques sagrados dedicados a diversos deuses pagãos, incluindo a deusa egípcia Isis. Dentre as atrações do Gianicolo, destacam-se o monumento equestre a Giuseppe Garibaldi, a Villa Doria Pamphili, Villa Corsini, igrejas e conventos como San Pancrazio, San Pietro in Montorio e o Convento de S. Onofrio.

Tempietto de Bramante. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.
Tempietto de Bramante. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

O Gianicolo tornou-se, após a unificação da Itália, no século XIX, um grande parque público e memorial do Risorgimento. Em 1849, liderados por Giuseppe Garibaldi, na colina teve lugar a última forte defesa da República Romana proclamada no mesmo ano. No ponto mais alto da colina foi colocada a estátua equestre de Garibaldi, concebida por Emilio Gallori, inaugurada em 1895, e de Anita Garibaldi, obra de Mario Rutelli, de 1932, em colaboração com Silvestre Cuffaro. Na encosta, ao longo do caminho que desce para o Vaticano, foi colocada uma série de bustos de mármore de retratos de guerrilheiros famosos. Perto da estátua de Garibaldi foi colocado um canhão que dispara, ao meio-dia, um tiro. Pode-se observar também o Ossuário de Garibaldi, um monumento de feição neoclássica do período fascista de Mussolini. Foi desenhado pelo arquiteto Giovanni Jacobucci (1895-1970) e solenemente inaugurado em 1941, contendo os restos mortais de combatentes referentes às batalhas até a década de 1870.  Em uma área cercada, um pórtico austero em mármore travertino, constituído por três arcos de volta perfeita de cada lado, contém o núcleo do monumento: um altar esculpido de um único bloco de granito vermelho, adornado com alegorias da Roma Antiga, como a loba, a águia imperial, escudos e espadas. Acima dos arcos vemos as palavras “Roma o morte”. No local são realizadas celebrações oficiais.

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Ossuário de Garibaldi, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Vista de Roma a partir do Acqua Paola. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Placa da Academia de Espanha na entrada do Tempietto. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A igreja de San Pietro in Montorio, onde se situa o Tempietto de Bramante, é o local que, segundo a tradição, tinha sido crucificado São Pedro, local citado desde o final da Alta Idade Média, por volta do século IX.  No local foi erguido um mosteiro para os beneditinos, e no século XV, já em ruínas, passa para os franciscanos, que restauram e ampliam o complexo, reerguendo uma nova igreja, dentro de um programa de desenvolvimento planejado por Sisto IV. As obras foram financiadas por monarcas como Luís XI de França e Ferdinando II e Isabel de Castela, reis de Espanha. A igreja foi consagrada pelo Papa Alexandre VI (Rodrigo Borgia) em 1500. O complexo sofreu graves danos nas mãos dos franceses, quando Napoleão III interveio para acabar com a segunda República romana de 1849. Durante a defesa do Gianicolo, a igreja foi usada como um hospital, além de ter sido saqueada.

Igreja de San Pietro in Montorio. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Atualmente pertence à Real Academia Espanhola, em Roma (existem vários edifícios de Espanha na Via Garibaldi até a Piazza San Pietro in Montorio, pertencentes à embaixada espanhola). A igreja possui obras de artistas eminentes dos séculos XVI ao século XVII, como Sebastiano del Piombo, Pomarancio, afrescos da escola de Pinturicchio, atribuições de Baldassare Peruzzi e Francesco Baratta. Até 1797 a Transfiguração de Rafael estava no altar-mor, quando foi retirado pelos franceses mas devolvido em 1816, quando passou para a Pinacoteca do Vaticano, sendo substituído por uma cópia da Crucificação de São Pedro de Guido Reni. A segunda capela do lado esquerdo, a Capela Raimondi (1640), foi projetada por Gian Lorenzo Bernini.

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Interior da igreja de San Pietro in Montorio. À esquerda, a Capela Raimondi, com o relevo do Êxtase de São Francisco, de Francesco Baratta, 1640. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Na rampa chamada Via S. Pietro in Montorio, que encurta o caminho da Via Garibaldi até a praça da igreja, foram erguidas, em 1957, as estações da Via Crucis feitas de terracota policromada pelo escultor Carmelo Pastor, no lugar de outra que estava em ruínas.

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Via Crucis in San Pietro in Montorio, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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O Aventino visto do Gianicolo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A fonte Acqua Paola está localizada no topo do Gianicolo, próximo ao Ossuário de Garibaldi. No passado, era o terminal de abastecimento da Acqua Paola (aqueduto de Trajano), restaurada entre 1608 e 1610 pelo Papa Paulo V, responsável pelo abastecimento de áreas como o Trastevere e o Vaticano. De monumental beleza, é um dos principais cartões postais da cidade. A metade inferior é composta por arcos, sendo três grandes arcos centrais ladeados por dois menores, separados por colunas em altos pedestais. A metade superior, acima dos três arcos centrais, é ocupada por uma grande inscrição que testemunha a construção da fonte, como um ático de arco de triunfo. A estrutura é coroada com um enorme brasão do Papa (Borghese) no frontão, ladeado por dois anjos esculpidos por Ippolito Buzzi (1562-1634). Parte de seus mármores foram retirados do fórum de Nerva.

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Aqua Paola. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Acqua Paola. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A Fonte da Prisão está localizada na Via Goffredo Mameli com a Via Luciano Manara, na descida do Gianicolo para o Trastevere. O nome “Prisão” advém da figura de mármore que aparentava ser um prisioneiro que tenta libertar-se da matéria, de acordo com descrições do século XVII. Esta escultura seria parte de um grupo mitológico maior, hoje perdido, inserido no nicho da fonte. Foi terminada em 1587 quando da renovação e restauração da antiga Acqua Alexandrina, porém esta foi desmontada e remontada na posição que ocupa desde 1923.  Seu desenho consiste em um grande nicho em semi-cúpula delimitado por duas pilastras que sustentam o frontão decorado com guirlandas e cabeças de leão (símbolo heráldico de Sisto V). Na base, estão bacias que recebem águas das torneiras, enquanto a cabeça de um leão, no centro, verte água na bacia ao nível da rua. A fonte é ladeada por duas grandes volutas.

A Fonte da Prisão. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Vista de Trastevere, abaixo do Gianicolo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Descendo o Gianicolo, em direção ao Campo de Marte e ao Vaticano, encontramos joias da história da arquitetura, como a Porta Settimiana. Ela é uma das portas que restaram das Muralhas Aurelianas de Roma, concebido pelo imperador Aureliano, no século III d.C.

Porta Settimiana. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Ordens clássicas

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Por Marcelo Albuquerque 

Ordem dórica

A ordem dórica surge por volta de 600 a.C., quando os gregos começaram a imitar em pedra as estruturas templárias (ver Templos e tipologias greco-romanas). Para Summerson, quando vemos um templo dórico de pedra estamos vendo uma representação esculpida em pedra de uma ordem dórica construída em madeira, ou seja, um equivalente escultórico. Provavelmente os templos mais sagrados e ricos foram sendo reconstruídos em pedra, gradualmente. Entretanto, as formas sagradas deveriam ser preservadas, de forma que a pedra imitasse a carpintaria e acabamentos estilizados em madeira. Posteriormente, os templos foram copiados e replicados sistematicamente, tornando seus desenhos consolidados e estáveis.

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Ordem dórica. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ordem_d%C3%B3rica. Acesso em: 20 jan, 2017.

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Pilastra de ordem toscana, muitas vezes associado ao dórico pelos romanos, e uma pequena pilastra de ordem coríntia, à direita, na Sala da Loba Capitolina, nos Museus Capitolinos. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A ordem dórica é a mais antiga, desenvolvida no continente grego, cujo capitel aparenta uma almofada que assenta a arquitrave sobre as colunas. De acordo com Vitrúvio, é principalmente empregada nos templos dedicados a divindades masculinas, como o templo na Jônia de Apolo Paniônio, por causa da proporção, solidez e elegância de um corpo viril, como foi visto primeiramente em um templo desse gênero nas cidades de Dóride. Se relaciona aos princípios espartanos de rudeza e força. É a mais simples das três ordens gregas definindo um edifício em geral baixo e de carácter sólido. A ordem dórica, ao lado da toscana, é apontada como a construção mais barata entre as outras ordens, devido à simplificação de elementos ornamentais que encareceriam uma edificação.

A coluna dórica constitui-se do fuste (a coluna em si) e o capitel (o coroamento da coluna), mas não possui base, tradicionalmente[1]. Tradicionalmente, a coluna dórica não tem base. Tem aproximadamente seis vezes o tamanho do diâmetro da coluna em altura. O fuste é raramente monolítico e pode apresentar vinte estrias ou sulcos verticais, segundo Vitrúvio, denominadas caneluras. O capitel é formado pelo équino, ou coxim, que se assemelha a uma almofada e por um elemento quadrangular, o ábaco, esculpido no mesmo bloco do capitel, apesar de não aparentar. A cornija apresenta-se horizontal nas alas, quebrando-se em ângulo nas fachadas de acordo com o telhado de duas águas. Os mútulos parecem extremidades de madeira que se projetam para suportar os beirais que evitam que as águas das chuvas escorram pelas fachadas. O friso é intercalado por módulos compostos de três estrias verticais, os triglifos, com dois relevos consecutivos lisos ou decorados, chamadas métopas. Os triglifos se assemelham às extremidades das ancestrais vigas de madeira visíveis do lado externo do entablamento, apoiadas na arquitrave. A tenia se assemelha a um elemento de junção, uma cavilha de madeira, presos aos triglifos pelas gotas. As gotas têm forma de um tronco de cone ou tronco de pirâmide.

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Gotas ornamentais em porta de madeira do CCBB BH. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Ordem jônica

A ordem jônica desenvolvida na região da Jônia, nas ilhas orientais gregas, remete a elementos vegetais estilizados com quatro volutas no capitel[2]. Foi relacionada por Vitrúvio com o feminino e à delicadeza da mulher, para o templo jônico de Diana. Segundo o tratadista, a coluna possui uma base larga, com uma espira imitando um sapato, que dá mais impulso estético e leveza. A coluna possui geralmente de oito a nove módulos de altura. O fuste é mais elegante e apresenta vinte e quatro caneluras, remetendo às pregas do vestuário feminino. O capitel acentua a analogia feminina por representar cabelos encaracolados sobre as orelhas. Remete-se também à analogia vegetal da coluna como uma palmeira, devido à influência orientalizante, como visto no Oriente Médio. Os ornamentos, como óvulos, dardos e festões, podem remeter aos ornamentos femininos de madeixas, comenta Vitrúvio.

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Ordem jônica no Templo de Saturno do Fórum Romano, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Ordem jônica. Adaptado de Wikimedia Commons, por Marcelo Albuquerque, 2017.

Ordem coríntia

A ordem coríntia possui folhas de acanto ornamentais, sendo a ordem mais prestigiada entre os romanos. De acordo com Vitrúvio, as colunas coríntias possuem as mesmas comensurabilidades que as jônicas, com exceção dos capitéis, porém proporcionalmente um pouco mais altas e mais delgadas. Os elementos sobre as colunas podem ser dispostos segundo o modo dórico e jônico. Se relacionam com a delicadeza virginal das donzelas em tenra idade, porque possuem uma configuração de membros mais grácil e adornos mais belos. De acordo com Summerson, a ordem coríntia sempre foi vista como feminina, enquanto a dórica como a  ordem masculina. A ordem jônica, segundo o autor, seria algo assexuado, no meio do caminho. A ordem coríntia também é escolhida por transmitir as ideias de opulência, abundância e luxo e, se comparada à ordem dórica, possui custos mais elevados de construção devido ao grande número de ornamentação.

Capitel coríntio no Capitolino. À direita, capitel coríntio, da época de Nero. Mármore Pentélico. Museu do Palatino, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Segundo a lenda descrita por Vitrúvio, uma virgem de Corinto foi acometida por uma enfermidade e faleceu. Após seu sepultamento, sua ama reuniu e dispôs num cesto as poucas coisas às quais ela se afeiçoara enquanto vivera. A ama levou o cesto a seu túmulo e colocou sobre ele um pequeno teto, para que os pertences se conservassem melhor. O cesto havia sido colocado casualmente sobre raízes de acanto, uma típica planta do Mediterrâneo, que verteram, com o passar do tempo, folhagens e hastes em volutas. Calímaco, então, em virtude da elegância e da graça de sua arte de trabalhar o mármore, passando perto desse monumento, reparou no cesto e na delicadeza da folhagem e, encantado, executou para os coríntios colunas segundo esse modelo e instituiu suas proporções.

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Johann Christian Reinhart: A invenção do capitel coríntio por Calímaco. 95,8 x 135 cm. Óleo sobre tela, 1846. Fonte: Wikipedia. Disponível em: https://de.wikipedia.org/wiki/Johann_Christian_Reinhart. Acesso em: 20 jan, 2017.

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Capiteis coríntios no Panteão, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Base de plinto de coluna coríntia do pórtico do Panteão, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 Ordem compósita

A ordem compósita é de origem romana, se caracteriza basicamente pela junção e sobreposição da ordem jônica sobre a coríntia. A ordem Compósita, até então considerada um desenvolvimento da Coríntia, foi descrita por Alberti, em De re aedificatoria. Serlio também a aponta a ordem coríntia nas pilastras do último nível da fachada do Coliseu, segundo Summerson.

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Capitel de pilar de ordem compósita, acervo do Museu do Palatino. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Ordem toscana

A ordem toscana tem origem na arquitetura etrusca. A ordem toscana se assemelha à ordem dórica, sendo também chamada de dórico romano. Segundo Vitrúvio, as colunas devem ter um diâmetro de base correspondente à sétima parte de sua altura, e uma altura igual a um terço da largura do templo, entre outras proporções descritas com maiores detalhes. Seus capitéis são redondos e possuem toros (anéis).

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Capiteis toscanos da colunata de Bernini, no Vaticano. Século XVII. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Templo Etrusco de Alatri, cujos capitéis de assemelham ao toscano. Museu Nacional de Villa Giulia, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015. À direita, esquema de ordem Toscana, segundo Vignola. Fonte: Wikipedia. Disponível em: https://it.wikipedia.org/wiki/Ordine_tuscanico. Acesso em: 20 jan, 2017.

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