EDUCAÇÃO, PATRIMÔNIO E PAISAGEM CULTURAL: REFLEXÕES E PRÁTICAS NO CURSO DE GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO

Artigo apresentado no I CONGRESSO INTERNACIONAL CIDADANIA, CIÊNCIAS, DIREITO E SAÚDE: REFLEXÕES TRANSDISCIPLINARES. Belo Horizonte, 2018.

Por Marcelo Albuquerque[1]

Resumo: O presente artigo é uma reflexão sobre a introdução dos conceitos fundamentais de patrimônio histórico e paisagem cultural no curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário UNA, visando a interdisciplinaridade entre as disciplinas de História da Arte, Arquitetura e Urbanismo e Patrimônio. Entre diversos temas, foi abordado, como objeto de estudo, o conjunto do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas, Minas Gerais, sendo este paradigma das discussões contemporâneas acerca do patrimônio e paisagem cultural. Através de visitas técnicas e estudos teóricos, foi observado a inserção do novo Museu de Congonhas como projeto de conservação da memória, identidade e patrimônio, sua interface entre o histórico e o contemporâneo, o controverso debate sobre a substituição dos profetas de pedra-sabão originais por réplicas, o fluxo de fiéis e comerciantes no Jubileu, os processos de conservação e restauração dos objetos artísticos e estruturas arquitetônicas, revitalizações, vandalismo e demais assuntos relacionados ao patrimônio. Sendo assim, o objetivo é apresentar a importância dos fundamentos artísticos e históricos como contribuição na formação de arquitetos e urbanistas e sua atuação profissional no campo do patrimônio histórico e artístico nacional.

Palavras-chaves: Educação, Patrimônio, Arquitetura, Arte, Paisagem cultural.

Abstract: This article is a reflection about the introduction of the fundamental concepts of historical heritage and cultural landscape in the undergraduate course in Architecture and Urbanism of the UNA University Center, aiming at the interdisciplinarity between the disciplines of Art History, Architecture and Urbanism and Heritage. Among several themes, the study of the Bom Jesus de Matosinhos Sanctuary in Congonhas, Minas Gerais, was the object of study, being this paradigm of contemporary discussions about heritage and cultural landscape. Through technical visits and theoretical studies, it was observed the insertion of the new Congonhas Museum as a project to preserve memory, identity and heritage, his interface between historical and contemporary, the controversial debate about the replacement of the original soapstone prophets and the process of preservation and restoration of artistic objects and architectural structures, revitalization, vandalism and other matters related to patrimony. Thus, the objective is to present the importance of artistic and historical foundations as a contribution in the training of architects and urbanists and their professional performance in the field of national historical and artistic patrimony. Keywords ¾ Education, Heritage, Architecture, Art, Cultural Landscape.

Resumen: El presente artículo es una reflexión sobre la introducción de los conceptos fundamentales de patrimonio histórico y paisaje cultural en el curso de graduación en Arquitectura y Urbanismo del Centro Universitario UNA, visando la interdisciplinaridad entre las disciplinas de Historia del Arte, Arquitectura y Urbanismo y Patrimonio. Entre diversos temas, se abordó, como objeto de estudio, el conjunto del Santuario de Bom Jesús de Matosinhos en Congonhas, Minas Gerais, siendo este paradigma de las discusiones contemporáneas acerca del patrimonio y el paisaje cultural. A través de visitas técnicas y estudios teóricos, se observó la inserción del nuevo Museo de Congonhas como proyecto de conservación de la memoria, identidad y patrimonio, su interfaz entre lo histórico y lo contemporáneo, el controvertido debate sobre la sustitución de los profetas de piedra jabón originales por las réplicas, el flujo de fieles y comerciantes en el Jubileo, los procesos de conservación y restauración de los objetos artísticos y estructuras arquitectónicas, revitalizaciones, vandalismo y demás asuntos relacionados al patrimonio. Siendo así, el objetivo es presentar la importancia de los fundamentos artísticos e históricos como contribución en la formación de arquitectos y urbanistas y su actuación profesional en el campo del patrimonio histórico y artístico nacional.

Palabras claves: Educación, Patrimonio, Arquitectura, Arte, Paisaje cultural.

1.    INTRODUÇÃO

Os primeiros contatos formais dos estudantes de arquitetura e urbanismo com as teorias e práticas no patrimônio, como disciplina acadêmica, além da História da Arte, Arquitetura e Urbanismo, são ideais nos ambientes das cidades históricas mineiras, devido à complexidade e variedade de assuntos que podem ser discutidos.  É importante ressaltar que uma parte dos estudantes tem escassos conhecimentos sobre a riqueza cultural de sua própria região, ignorando elementos fundamentais da arqueologia, arte, arquitetura e urbanismo, porém apresentam excelente receptividade à disciplina e aos temas relacionados. Como exemplo, uma parte considerável de alunos de Belo Horizonte e região desconhecem a importância arqueológica dos sítios de Lagoa Santa e região, como apontam Prous, Baeta e Rubbioli em O patrimônio arqueológico da região de Matozinhos: conhecer para proteger (PROUS; BAETA; RUBBIOLI, 2003). Congonhas, especificamente o Santuário de Bom Jesus de Matozinhos, oferece um rico panorama sobre as questões do patrimônio, conservação, restauração, memória, paisagem cultural e interação entre obras artísticas e edificações de séculos passados com o dinamismo da contemporaneidade. Percebe-se Congonhas dentro de uma linha histórica de uma cidade que acolhe aspectos culturais, econômicos e religiosos particulares encontrados em pouquíssimas cidades do território nacional. No contexto do Santuário, surge uma paisagem que transmite tradições e valores advindos da Europa medieval, renascentista e barroca, através da tradição dos sacromontes europeus italianos e portugueses, em especial. Dessa forma, aproveita-se para traçar uma importante conexão entre a história da arte e arquitetura com a realidade direta vivenciada no curso de arquitetura e urbanismo.

Nesse sentido, desenvolve-se um debate de introdução aos autores de referência do patrimônio, conservação e restauração, principalmente os desenvolvidos no século XIX às teorias contemporâneas, além das cartas patrimoniais. Ao mesmo tempo, temos a oportunidade de refletir como as cidades constantemente se transformam, por diversas forças e fatores, e como impasses e soluções são gerados diante de tais realidades, levando em consideração a interação entre os edifícios, obras e as questões urbanas em escala maior. De início, apresenta-se uma pesquisa histórica da cidade de Congonhas, suas origens nos primórdios de Minas Gerais, a construção do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, os Passos da Via Sacra e as esculturas de Aleijadinho, para em um segundo momento apontar aspectos atuais da cidade contemporânea.

  1. METODOLOGIA

As práticas acadêmicas desenvolvidas durante este período refletem um campo fértil de debates sobre o patrimônio histórico, sua preservação e formação dentro dos ambientes de ensino, em especial nas universidades. Nas áreas de Arquitetura e Urbanismo, Belas Artes (ou Artes Visuais) e Conservação e Restauração, áreas que tenho experiencia como docente, é imprescindível o estudo do Patrimônio Histórico, de forma a apresentar as possibilidades profissionais e de formação geral dentro de cada curso. O turismo, por exemplo, não visto aqui como simples entretenimento, relaciona-se diretamente ao patrimônio, estando vinculado aos investimentos e oportunidades profissionais no meio. No campo da educação e da cultura, o patrimônio histórico é fomentado por leis e programas de incentivos, em diversas instancias. No âmbito da conservação e restauração, observamos a lições de Cesare Brandi: “A restauração constitui o momento metodológico do reconhecimento da obra de arte, na sua consistência física e na sua dúplice polaridade estética e histórica, com vistas à sua transmissão para o futuro” (BRANDI, 2005, p. 30).

As relações entre educação e patrimônio podem partir de fundamentos tradicionais de memória e identidade, oriundos de uma formação oficial, como ocorre nas instituições religiosas e governamentais, e também a partir de manifestações populares e espontâneas, “extraoficiais”, por vezes marginalizadas, em determinados contextos. Sendo assim, considero fundamental a relação de tensão entre tradição e contemporaneidade para a abordagem de um vasto campo de pesquisa relacionado ao conceito amplo de patrimônio. Nesse rumo, as relações entre educação e patrimônio objetivam o reconhecimento, em um nível mais básico, e formação profissional, em um nível mais avançado, de indivíduos capazes de se reconhecerem e de atuarem sobre sua própria história cultural. Portanto, é importante observar que o tema pode ser entendido como um meio de afirmação da cidadania, de forma a envolver a comunidade ativamente, através de atividades teóricas e práticas, visando uma percepção abrangente da pluralidade cultural brasileira e mundial. De acordo com Queiroz (2005), a educação patrimonial torna-se um poderoso instrumento no processo de reencontro do indivíduo consigo mesmo, resgatando sua autoestima através da revalorização e reconquista de sua própria cultura e identidade, do perceber seu entorno e a si mesmo em seu contexto cultural como um todo, convertendo-se em principal agente de transformação. O amplo conceito de patrimônio cultural, relembra Queiroz, e de acordo com o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), abrange não só os bens móveis e imóveis, mas toda a herança imaterial que se estabelece entre o homem e o meio, como celebrações, formas de expressão (manifestações artísticas em geral), tradições culinárias, danças, lugares, etc.

Ao estudante de arquitetura e urbanismo, em especial, é importante identificar as manifestações culturais do sítio pesquisado, através de estudos teóricos, visitas técnicas e, sempre que possível, entrevistas com os moradores das comunidades locais. Dessa maneira, os estudantes entram em contato com fontes primárias de pesquisa, se aproximando do tema através da experiencia direta na realidade. A partir desse entendimento por parte dos estudantes sobre educação e patrimônio, no processo de ensino/aprendizagem, abre-se a discussão referente aos conceitos de paisagem cultural, entendida brevemente como relação entre o homem e o meio, especialmente nas relações estéticas e de identidade, conforme nos ensinam Schama (1996), Assunto (2013) e Simmel (2009). O termo “paisagem” é por demais abrangente, não cabendo nesse momento buscar definições. Para que um determinado local seja considerado uma paisagem cultural, institucionalmente, uma chancela é atribuída pelo IPHAN, que reconhece o valor cultural daquele sítio, sendo necessário o desenvolvimento de um Plano de Gestão. Atualmente o ICOM (International Council of Museums) incentiva o debate sobre os museus de sítio, entendidos como museus que se inserem na paisagem e assumem responsabilidades vinculadas à educação patrimonial em sintonia com as comunidades locais.  A partir desses princípios percebemos, na estrutura dos novos museus, a ênfase nos departamentos ou setores educativos que, além de orientar os visitantes, oferecem suporte para as diversas categorias do ensino formal, do básico ao superior. Nesses ambientes, os estudantes de arquitetura e urbanismo tem a possibilidade de ingressar em estágios profissionais, podendo leva-los a uma tomada de decisão acerca de seu futuro profissional e acadêmico nas áreas relacionadas ao patrimônio.

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Figura 1.  Grupo de alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário UNA, em diversas visitas técnicas às cidades históricas, como Ouro Preto e Congonhas. Fonte: Marcelo Albuquerque, 2017.

Os primeiros contatos teóricos são proporcionados pela apresentação das instituições, cartas patrimoniais e legislações dedicadas à conservação e restauração dos bens patrimoniais materiais e imateriais, como o IPHAN, o IEPHA-MG (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais) e o ICOMOS (International Council of Monuments and Sites), entre outros. Em seguida, segue-se a leitura e comentários da bibliografia básica, como as próprias Cartas patrimoniais e os principais teóricos. Nesse momento, consolida-se a introdução do panorama histórico da ideia de monumento e patrimônio, museus e demais procedimentos discutidos e aplicados ao longo do tempo. As contribuições da química e o desenvolvimento de tecnologias são observados junto à importância da história da arte e da arquitetura.

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Figura 2. Visitas técnicas guiadas com alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário UNA, a museus de São Paulo, como Pinacoteca, MASP, Instituto Tomie Ohtake e CCBB, promovido pelo Diretório Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo. Fonte: DAAU UNA, 2017.

  1. RESULTADOS

Conhecer para preservar: esta expressão ilustra bem os objetivos para alcançar os resultados. Como nos ensina Choay (2001), desde a Idade Média, especialmente em Roma, bulas e leis foram sendo elaboradas no sentido da preservação do patrimônio, atingindo um alto nível de debate durante os conturbados anos da Revolução Francesa e ao longo do século XIX. Ruskin chega a propor a criação de uma organização europeia de proteção e salvaguarda, administradas com fundos privados e doações, de forma a inventariar e intervir em monumentos antigos dignos de interesse. Para tanto, havia a necessidade de práticas específicas e pessoas especializadas para que não se comprometesse ainda mais o patrimônio histórico com práticas de caráter duvido e restaurações desastrosas. O século XX apresenta novos conhecimentos teóricos, metodológicos e científicos aliados ao aparato tecnológico. Entre os conteúdos discutidos, destaca-se a importância da conservação preventiva diante das intervenções de restauração, sendo fundamental aos estudantes leituras sobre os fundamentos de Camilo Boito, Aloïs Riegl e Cesare Brandi, entre outros, apresentando como a conservação dos monumentos históricos conquistou o status disciplinar nos dias de hoje. Entre os fundamentos observados, os mais citados pelos alunos são a singularidade da obra de arte e suas relações entre as atividades humanas e seu contexto, a conservação e restauração sem que se cometa um falso artístico ou um falso histórico, como nos orienta Brandi:

“A restauração deve visar ao restabelecimento da unidade potencial da obra de arte, desde que isso seja possível sem cometer um falso artístico ou um falso histórico, e sem cancelar nenhum traço da passagem da obra de arte no tempo” (BRANDI, 2005, p. 33).

Outro ponto forte da disciplina incide sobre o Museu de Congonhas enquanto arquitetura contemporânea, de forma a analisar sua inserção no conjunto histórico, sua missão educativa, como elemento constituinte da paisagem arquitetônica e urbana local e suas técnicas e sistemas construtivos. Ao museu cabe uma missão, dentre outras, de mediar, pedagogicamente, a relação entre o visitante e o santuário. Esse visitante, o grande publico heterogêneo e leigo em questões artísticas e arquitetônicas, tem a oportunidade de se aproximar das complexidades do rico patrimônio e de seus desafios de conservação. No museu tem-se a oportunidade de interagir com os aspectos históricos, fundação da cidade, criação e expansão do Santuário.

Durante o Projeto Aplicado (PA), os alunos precisaram desenvolver uma linha histórica comum a todos os grupos, para adiante focarem em objetivos específicos de acordo com as decisões tomadas coletivamente. Os aspectos históricos contemplam a povoação e fundação da cidade de Congonhas por colonizadores portugueses, atraídos pela exploração de ouro, fundando assim o município de Congonhas. Dentre estes mineradores portugueses estava Feliciano Mendes, enriquecido após muitos anos de trabalho, quando foi acometido de uma enfermidade, prometendo como ex-voto ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos a empreitada da construção de seu santuário, com contribuições de personalidades como Francisco de Lima Cerqueira, Aleijadinho e Mestre Ataíde. Obras análogas e relações artísticas e arquitetônicas, entre Brasil e Portugal, merecem destaque no momento em que são apresentadas e pesquisadas as influencias trazidas da Europa e construídas em solo mineiro, constituindo um exemplar único em toda a história da arte e arquitetura no Brasil. Tratam-se das concepções de sacromontes ou montes santos, difundidos na Europa medieval e bastante populares na Europa barroca católica. O santuário de Congonhas segue os princípios dos Santuários de Bom Jesus do Monte, em Braga, e do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego. Em relação aos demais pontos artísticos observados para a construção das atividades e conclusão dos artigos, os alunos precisaram dissertar a respeito de outros fundamentos, de forma a reforçar o caráter interdisciplinar do PA, como os artistas e arquitetos de referência histórica, análise estilística e formal, definindo os estilos barroco e rococó do período, especialmente o rococó, no caso do Santuário, descrição de elementos ornamentais e estruturais, como pilastras, cimalhas ou cornijas, frontões, relevos escultóricos, cantaria, entre outros, assim como um estudo básico de iconografia do Santuário de Bom Jesus do Matosinhos, em parte expostos no Museu de Congonhas.

Certamente os Doze Profetas em pedra-sabão de Aleijadinho despertam os maiores interesses e controvérsias dentro dos debates oferecidos pela cidade. Elas foram concebidas de maneira que se relacionem com o adro e com o conjunto, convidando o fiel a subir as escadarias para seguir na devoção. As 64 esculturas de madeira em tamanho natural, distribuídas pelas seis capelas dos sete Passos da Paixão de Cristo, compõem um dos mais belos grupos escultóricos dessa tradição de imagens sacras no mundo católico. São atribuídas a Aleijadinho as imagens das duas primeiras capelas e as imagens de Jesus em todas as outras, ficando as demais a cargo de seus auxiliares, sob sua supervisão e acabamento. Aleijadinho viria a morrer em 1814.  Posteriormente, na segunda metade do século XIX, foram construídas as demais capelas e finalizadas as policromias dos personagens da Paixão de Cristo. Em 1939 o conjunto é tombado pela SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), sendo que a primeira grande restauração do Santuário foi realizada em 1957, com ênfase nas capelas dos Passos e em suas esculturas. A restauração conseguiu remover camadas superpostas de tintas que encobriam a obra original de Aleijadinho e Mestre Ataíde. Em 1957, o Santuário foi elevado à condição de Basílica Menor, oferecendo maior incentivo à devoção a Bom Jesus de Matozinhos. Entre 1973 e 1974 ocorreu uma segunda grande restauração pelo IEPHA/MG, em convênio com o IPHAN. Foram realizadas obras de conservação, restauração e proteção do conjunto arquitetônico e paisagístico do Santuário, tendo como responsável pelas obras de restauração o arquiteto e diretor executivo do IEPHA/MG Luciano Amédée Péret com projeto paisagístico de Roberto Burle Marx. O santuário foi declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1985.

O Museu de Congonhas, assim como faz com o grande público, contribuiu na escolha dos objetivos específicos a serem apresentados por cada grupo. Entre os principais temas escolhidos por eles, como objetivos específicos, estão (lembrando que os alunos deveriam privilegiar o cruzamento com a bibliografia e conteúdos das disciplinas cursadas antes e durante o Projeto Aplicado):

  • Sacromontes ou Montes Santos: história da arte e da arquitetura religiosa, tradições, costumes, iconografia e implantação no tecido urbano.
  • Teoria da restauração: autores, cartas patrimoniais e períodos de referência.
  • Substituição dos profetas de Aleijadinho por réplicas: uma das missões do Museu de Congonhas é o de apresentar a discussão ao grande público acerca da substituição por réplicas dos Doze Profetas do adro da basílica.  Por estarem ao ar livre e expostas às intempéries, o debate é aquecido pelos defensores de sua retirada e pelos defensores de sua conservação no local original. Os dois lados possuem fortes argumentos, sendo estes debatidos em sala de aula e no local no dia da visita técnica. São levadas em consideração a degradação natural, poluição e vandalismo como agentes principais de deterioração das esculturas. Foram colhidas fotografias de patologias e detalhes de degradação dos materiais e perdas de elementos artísticos decorrentes de vandalismo e intempéries, entre outros.
  • Arquitetura do museu: implantação, sistemas estruturais, materiais, técnicas construtivas, conforto ambiental, iluminação, tecnologias. Convergências com as demais disciplinas cursadas antes e durante o semestre letivo.
  • Museologia e expografia: programa museológico, diretrizes, significado religioso, significado artístico, patrimônio material e patrimônio imaterial, processo de patrimonialização do sítio, tecnologias audiovisuais e conceitos expositivos.
  • Paisagismo, entorno, sinalização: aspectos históricos, passarelas para travessia de pedestres, sinalização para deficientes visuais, mobiliário urbano, espaços de permanência, luminárias, guarda-corpos, estreitamento de pista de carros, totens, entre outros.
  • Turismo e peregrinação: romaria, fluxos e demandas, ruídos e poluição visual.
  • Órgãos competentes do patrimônio: conhecimento dos principais institutos, secretarias, fundações e programas governamentais responsáveis pelas diretrizes e financiamentos das obras em geral.

A substituição dos Profetas por réplicas leva ao questionamento de substituí-las por cópias, sendo que os originais seriam resguardados dentro do Museu de Congonhas, uma das possíveis funções do Museu no futuro. Como foi visto em aulas teóricas e na bibliografia da disciplina, este tipo de solução para conservação foi praticada em cidades europeias, em especial as italianas, onde réplicas substituem os originais, que são resguardados em ambientes cobertos ou mesmo climatizados. Os alunos tiveram, assim, contato com princípios complexos baseados na realidade direta que envolvem tomadas de decisão de grande responsabilidade. Para os defensores da preservação das obras em seu local de origem, o valor religioso das esculturas, para moradores e peregrinos, é de valor incalculável, da mesma forma que o valor artístico. Os conservadores, historiadores, arquitetos e críticos de arte que discordam veementemente da retirada das esculturas argumentam principalmente a manutenção da concepção original e da vontade do artista, bem como os prejuízos a serem causados nas questões de fé e tradições. Por serem tombados pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade, dificulta ainda mais a possível retirada dos originais. Já os que são a favor da retirada imediata, o quanto antes possível, defendem o resguardo as esculturas originais como forma de evitar mais danos e vandalismos, desacelerando fortemente os processos de degradação.

Também foi observado pelos grupos de trabalho a inserção do novo edifício do museu no conjunto arquitetônico do santuário, observando sua harmonia com o entorno.  Este ponto foi fundamental para o desenvolvimento dos artigos de Projeto Aplicado, pois foi observado a importância dos estudos de implantação e volumetria, chegando-se à conclusão que esse elemento é essencial para se evitar a competição volumétrica com o conjunto principal, fator primordial para a arquitetura contemporânea. O edifício deve, portanto, se incluir ao conjunto arquitetônico do entorno e se incorporar no contexto urbano, segundo os alunos.

  1. CONCLUSÃO

A preservação do patrimônio cultural é um grande desafio dentro das universidades, por exigir do aluno uma compreensão holística dos sentidos artísticos, arquitetônicos e urbanísticos. Dependemos também de referências bibliográficas eruditas que elevem esses alunos à patamares superiores de informação e que forneçam os fundamentos para os posicionamentos críticos e atitudes práticas e profissionais. De acordo com as observações dos alunos, o crescimento das cidades, a expansão imobiliária, o déficit habitacional e os impactos ambientais constituem fatores que desafiam os gestores públicos a confrontar o desenvolvimento eminente, com a necessidade de minimização de impactos ambientais e sociais. Neste cenário, foi observado que o Museu de Congonhas tem como objetivo armazenar e expor a história da cidade de Congonhas, criando um impacto positivo na cidade, aumentando o fluxo de turismo e proporcionando melhorias na infraestrutura geral. Os profetas de Aleijadinho proporcionam uma excelente forma para o debate sobre a preservação desses monumentos, como protegê-los e como salvaguarda-los.

Outro ponto observado pelos estudantes foi a importância, para os futuros arquitetos e urbanistas, sobre a formação teórica e prática de conservação e restauração do patrimônio cultural, sejam eles documentais, materiais, simbólicos e memoriais, essenciais à nossa identidade. Disciplinas relacionadas ao patrimônio, na formação do arquiteto e urbanista, proporcionam um avanço no entendimento do tecido urbano pré-existente. Observamos que o Museu de Congonhas é um “museu de sítio”, conceitualmente sintonizado com as discussões contemporâneas sobre patrimônio, tratando as manifestações da fé, devoção, monumentalidade e ex-votos. Foram desenvolvidos textos e imagens que sustentam as pesquisas e argumentos dos grupos de alunos, através de revisão bibliográfica e visitas técnicas a museus e acervos. Amparados pelas aulas ministradas, as visitas proporcionaram a percepção, com maior clareza, dos impactos dessas mudanças na vida econômica, social e cultural de Congonhas, mas que poderiam ser aplicadas em outros sítios. Como professor, atentei para os diversos elementos propostos na disciplina, como a compreensão da riqueza e complexidade do barroco e do rococó no Brasil, a importância da preservação e restauração para o arquiteto e urbanista, conhecimento dos principais centros de estudos e instituições de conservação e restauração no Brasil, de forma a despertar para as possibilidades profissionais e de pesquisa nas áreas do patrimônio artístico e histórico. Sendo assim, foi solicitado uma posição crítica em relação à pesquisa, através de perguntas básicas: Qual o papel e a responsabilidade do arquiteto no contexto pesquisado? A população, de forma geral, compreende a importância do patrimônio estudado? Existe documentação suficiente? Seria necessária maior pesquisa sobre o local?

REFERÊNCIAS

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CHOAY, FrançoiseA alegoria do patrimônio. São Paulo: Editora UNESP, 2001.

ELIAS, Lucienne Maria de Almeida. Diagnóstico de Conservação do Conjunto Escultórico da Capela da Ceia do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, Minas Gerais, Brasil. Dissertação de Mestrado do Curso de Artes, área Conservação Preventiva, Escola de Belas Artes, UFMG, 2002.

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GUSTAVO PENNA ARQUITETO E ASSOCIADOS. Projetos – Institucionais – Museu de Congonhas. Disponível em <http://www.gustavopenna.com.br/projetos/exibir/museu_de_congonhas/41&gt; Acesso em: 20 abr. 2017.

LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. São Paulo: Martins fontes, 1997.

MACHADO, Jurema. Museu de Congonhas: relato de uma experiência. Brasília: UNESCO, 2017. 96 p.

OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. História da Arte no Brasil: textos e síntese. Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, Sonia Gomes Pereira e Ângela Ancora da Luz. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2010.

OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. O Rococó religioso no Brasil e seus antecedentes europeus. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

PROUS, André; BAETA, Alenice Motta; RUBBIOLI, Ezio. O patrimônio arqueológico da região de Matozinhos: conhecer para proteger. Belo Horizonte: Ed. autor, 2003.132 p.

QUEIROZ, Moema Nascimento. Consciência Patrimonial: construção da cidadania. IN: Curso de Capacitação Museológica: Recriando o museu. Outubro 2005.

SCHAMA, Simon. Paisagem e memória. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 645 p.

SIMMEL, Georg. A Filosofia da Paisagem. Tradução de Arthur Mourão. Covilhã: Lusosofia:press, 2009.

[1] Mestre em Artes Visuais pela EBA-UFMG, especialista em História da Arte pela PUC-MG, bacharel em Belas Artes pela EBA-UFMG, pintor e desenhista. Professor de graduação em Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário UNA de Belo Horizonte e Contagem –  marcelo.correa@prof.una.br 1

Teoria da Restauração – UNA

Atividade a Congonhas – 17/09/2017

Visita técnica obrigatória

LINK: https://www.turismoestudantil.com.br/SuperiorTecnicoVisita

SENHA DA INSTITUIÇÃO: unabh070317

PRAZO DE INSCRIÇÃO: 25/08/2017

VALOR DA ATIVIDADE: R$55,00

 

Artigos da disciplina:

Paleopaisagens – A pré-história em Minas Gerais e no Brasil

Patrimônio arqueológico e paleontológico: conhecer para preservar!

Defender.org. Aleijadinho

 

Link para o ONEDRIVE:

https://1drv.ms/f/s!AixFNTdEM_uchrE7XjJ72DZYleBu6w

 

Cartas patrimoniais (website do IPHAN):

http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/226

 

Patrimônio histórico e artístico: artigos diversos

Turista é presa após escrever nome em coluna do Coliseu. Uma francesa escreveu “Sabrina 2017” em um dos tijolos da coluna. Por Diego Braga Norte. Disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/headlines/turista-e-presa-apos-escrever-nome-em-coluna-do-coliseu/

 

Vídeos:

 

 

 

 

 

Paleopaisagens – A pré-história em Minas Gerais e no Brasil

Paleopaisagens – A pré-história em Minas Gerais e no Brasil

Por Marcelo Albuquerque

O Brasil está repleto de vestígios arqueológicos, e é dever de todo cidadão contribuir para a sua preservação. Esta responsabilidade incide, principalmente, naqueles que estudam diretamente as disciplinas de arte, arquitetura e urbanismo, design e disciplinas afins. Convivemos e somos vizinhos de sítios arqueológicos, e praticamente não os conhecemos e não os valorizamos como deveriam. É preciso reconhecer, também, que existe um vasto campo profissional que pode ser seguido nas áreas relacionadas à história, sejam teóricas ou práticas, como a própria história da arte, história da arquitetura, conservação e restauração de bens móveis e imóveis, patrimônio histórico e artístico, museologia, arqueologia, paleontologia, entre outros.

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Marcelo Albuquerque. Paleopaisagem. Caneta pigmentada, 21 x 29 cm, 2013.

Acreditava-se que a ocupação das Américas ocorreu em aproximadamente 15.000 a.C., quando o homem atravessou o Estreito de Bhering na era do gelo. Entretanto, os indícios do homem no continente americano já remontam a 50.000 a.C., de acordo com as pesquisas realizadas na Serra da Capivara, no estado do Piauí. Pensava-se que os primeiros habitantes americanos eram os ancestrais dos atuais nativos indígenas, de feições mongólicas, mas as ossadas mais antigas apontam feições negroides, que poderiam ter chegado nas Américas através de ondas migratórias mais antigas ou mesmo pelo mar, sendo povos semelhantes aos aborígenes australianos. Posteriormente, as regiões foram sendo ocupadas por imigrantes de origem mongólica, que acabaram por dominar todo o continente e se subdividirem em grandes civilizações, tribos e etnias, até a chegada dos primeiros portugueses e espanhóis no século XV e XVI da nossa era. A Serra da Capivara, no Piauí, possui a datação mais antiga das Américas, cerca de 50.000 a.C. a 6.000 a.C., com pinturas, ferramentas de pedra lascada, ossadas humanas e de animais e restos de fogões primitivos.

Pinturas rupestres. À direita, a Pedra Furada. Serra da Capivara, Piauí.  Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Nacional_Serra_da_Capivara. Acesso em: 15 jul. 2016.

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Visitante na Gruta da Macumba, em Lagoa Santa. Minas Gerais. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

Na região Lagoa Santa e Pedro Leopoldo, Minas Gerais, há onze mil anos, vivia o Povo de Luzia. Luzia foi o nome dado à ossada feminina encontrada na região, de feições negroides, por uma missão de cientistas franco-brasileira. Estes povos conviviam com tatus e preguiças gigantes, mamíferos hoje extintos. Não conheciam a agricultura nem a cerâmica e dependiam da caça e da coleta. Entre os principais sítios arqueológicos estão o complexo da Lapa Vermelha, nos arredores de Confins. Estes povos ocuparam a região até aproximadamente 7.000 a.C., havendo um hiato até 3.000 a.C., sendo a região desde então ocupada por povos horticultores ancestrais dos atuais indígenas, entre elas a tradição tupi-guarani, de feições asiáticas (mongoloides). Isto indica que as Américas foram primeiramente ocupadas por negroides, e não pelos ameríndios ancestrais dos índios atuais, como se acreditava no passado. A região de Lagoa Santa possui a maior concentração de esqueletos antigos, segundo os especialistas.

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Lapa Vermelha, Confins. Minas Gerais. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

As pesquisas, que se iniciaram com a presença do dinamarquês Peter Lund na década de 1840, continuam atualmente com um grande projeto de pesquisa sobre a origem do homem nas Américas coordenado pelo arqueólogo Waltes Neves, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (LEEH) do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB/USP).

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Várzea da Pedra, Mocambeiro. Minas Gerais. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

No Brasil, existem duas definições principais das tradições e estilos regionais. Os conjuntos rupestres de um mesmo período, que apresentem temáticas semelhantes, são agrupados em uma “tradição”, e dentro desta tradição podem ocorrer “estilos”, quando ocorrem em uma região específica dentro de um período no tempo. Já as “fácies” são características peculiares, temáticas e técnicas de elaboração comuns dentro de uma tradição. São elas:

  • Tradição Nordeste: foi definida no Piauí. É caracterizada por um grande número de figuras humanas organizadas e em movimento, realizando tarefas cotidianas e ritualísticas. Grupos de animais podem acompanhar as figuras humanas. Também é encontrada em Minas Gerais.
  • Tradição Planalto: mais comum em Minas Gerais, é encontrada desde o norte do Paraná até o sul de Tocantins. Caracteriza-se pela predominância de animais, em especial os cervídeos, além de peixes, onças, tatus, aves e roedores. Os animais costumam estar cercados por figuras humanas em cenas de caça. As figuras costumam ser monocrômicas, em geral em vermelho e amarelo.

Outro parque merece destaque nesse artigo: o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, em Januária, Minas Gerais, que agrupa um conjunto de grandes cavernas, cujas pinturas rupestres mais antigas datam de cerca de 10 mil anos.

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Peruaçu, Minas Gerais. Dolina dos Macacos. Fonte: Wikipédia.
Disponível em:  https://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Nacional_Cavernas_do_Perua%C3%A7u. Acesso em: 15 jul. 2016.

Foram classificadas na Serra da Capivara pinturas e gravações de obras com motivos naturalistas e obras com motivos geométricos. A figura humana predomina nas formas naturalistas, além de figuras de animais, como mamíferos, pássaros, répteis, insetos e peixes. Os motivos geométricos apresentam figuras espiraladas, circulares, triangulares e linhas paralelas. Entre os sítios da Serra da Capivara se destaca a Toca do Boqueirão da Pedra Furada. O parque nacional foi decretado em 1979, com os esforços da arqueóloga brasileira Niède Guidon e de instituições francesas.

Sempre me perguntam de onde vem minhas referências para a pintura. Uma delas é seguir um roteiro especial, visitando e registrando os pontos de interesse. A imagem a seguir apresenta parte de um roteiro, no noroeste de Lagoa Santa, uma das mais importantes áreas arqueológicas da América do Sul. Nessa região situa-se o circuito das grutas: Maquiné, Lapinha e Rei do Mato.

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Roteiro de pesquisa Paleopaisagens. Fonte: Google Earth, 2012.

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Marcelo Albuquerque: Paleopaisagem. Aquarela, 40 x 51 cm, 2012.

O Parque Estadual do Sumidouro oferece uma caminhada por trilhas, passando pela mata exuberante do cerrado, pedras, pelos locais de escavação preservados de Peter Lund, pelas pinturas rupestres e pelas margens da lagoa. Os guias são muito atenciosos. Outro ponto interessante da trilha do Sumidouro é a visita a um dos locais onde Peter Lund realizou suas escavações. Os buracos permanecem no local, e deles saíram os fósseis e ossos de animais que contribuíram para as teorias do cientista dinamarquês.

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Parque Estadual do Sumidouro. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

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Trilha no Parque Estadual do Sumidouro. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

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Pinturas rupestres no Parque Estadual do Sumidouro. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

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Escavações de Peter Lund. Parque Estadual do Sumidouro. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

A famosa gruta da Lapinha é parada obrigatória. Foi erguido recentemente o museu Peter Lund, ao lado da gruta, de onde parte a visita guiada para dentro dela. Imperdível. O ingresso dá direito ao passeio pelo Parque Estadual do Sumidouro.

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Gruta da Lapinha, em Lagoa Santa. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

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Gruta da Lapinha, em Lagoa Santa. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

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Gruta da Lapinha, em Lagoa Santa. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

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Arco de Pedra da Gruta do Baú, no caminho entre Fidalgo e Pedro Leopoldo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

Segundo o texto da exposição sobre os sítios arqueológicos em Minas Gerais, no Espaço Tim UFMG do Conhecimento, na Praça da Liberdade, os conjuntos de pinturas rupestres mais densos encontram-se na região de Lagoa Santa, na Serra do Cipó, no vale do rio Peruaçu e Cochá e no Alto Jequitinhonha.

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Infográfico do Espaço Tim UFMG do Conhecimento, em Belo Horizonte. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

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Marcelo Albuquerque. Paleopaisagem. Aquarela, 55 x 75 cm, 2012.

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Gruta da Faustina, em Pedro Leopoldo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

As estradas de terra estão em boas condições e um carro de passeio pode perfeitamente ir sem problemas. A região mais problemática percorrida foi nas cercanias da Lagoa da Gordura, em Matozinhos. Deve-se estar atento às condições da estrada, muito erodida por causa das águas.

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Lagoa da Gordura, em Pedro Leopoldo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

Também seleciono esta excelente entrevista do Dr. Pedro da Glória, especialista nos hábitos dos paleohabitantes de Lagoa Santa. Realizada nos EUA, sua tese de doutorado buscou entender a saúde e o estilo de vida dos homens pré-históricos através da análise de seus esqueletos. Confira abaixo:

Este outro vídeo, muito interessante, mostra a escavação realizada na Lapa do Santo, por pesquisadores da USP. Percebam a profundidade do buraco escavado. Durante as escavações, foi encontrado o registro artístico, um baixo relevo, mais antigo das Américas. Confira abaixo:

Referências bibliográficas:

PROUS, André. O patrimônio arqueológico da região de Matozinhos: conhecer para proteger. André Prous, Alenice Baeta, Ezio Rubbioli. Belo Horizonte: Ed. do autor, 2003. 132 : il.

Na internet:

Circuito das grutas. Disponível em: http://www.circuitodasgrutas.com.br/. Acesso em 22 ago. 2012.

O melhor de Lagoa Santa. disponível em: http://melhordelagoasanta.wordpress.com. Acesso em 30 set. 2012.

Peter Lund e as Grutas de Minas Gerais. Disponível em: http://rockartluzia.blogspot.com.br/. Acesso em 10 nov. 2012.

Prefeitura Municipal de Lagoa Santa. Disponível em: http://www.lagoasanta.mg.gov.br/. Acesso em 24 ago. 2012.

Prefeitura Municipal de Matozinhos. Disponível em: http://www.matozinhos.mg.gov.br/. Acesso em 23 ago. 2012.

Patrimônio arqueológico e paleontológico: conhecer para preservar!

Por Marcelo Albuquerque

Para que tenhamos uma maior compreensão da riqueza de nosso passado, especialmente em Minas Gerais e no Brasil, é necessário um grande esforço de preservação dos sítios arqueológicos, pois convivemos com diversos interesses que colocam em risco sua preservação, como a especulação imobiliária, a mineração e o vandalismo. É necessário conhecer para preservar!

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Vandalismo na Gruta da Macumba. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

Existem vários agentes de degradação, tanto naturais quanto de iniciativa humana. Entre os naturais se encontram: erosões, escorrimentos naturais de rochas, ninhos de insetos e aracnídeos, líquens, formações de cristais, entre outros. Os principais e maiores vem das atividades humanas: agricultura e pecuária, mineração, construções urbanas e rurais, vandalismo. Segundo Alenice Baeta:

Muitas das vezes, os pichadores nem percebem que há, nas paredes, pinturas rupestres pré-coloniais, desconhecendo, inclusive, a sua existência. No entanto, há sinais claros onde estas intervenções são realizadas propositadamente sobre os grafismos arqueológicos; é o caso de pessoas que contornaram com giz as figuras, visando destaca-las para tirar fotografias, ou que completaram com caneta hidrocor o rabo de um peixe para que a figura ficasse “completa”, como ocorreu na Lapa da Escrivania. Na Lapa de Cerca Grande foi ateado óleo de cozinha em uma pintura, buscando reaviva-la momentaneamente para uma filmagem. Atualmente, é muito raro identificar um sitio arqueológico nesta região que ainda não tenha sido pichado, mesmo que discretamente (PROUS; BAETA; RUBBIOLI, 2003, p. 118).

Abaixo estão relacionados os principais agentes de degradação dos sítios arqueológicos, de origem humana:

– Agricultura e pecuária desordenados;

– Exploração de minério, cal e salitre, entre outros;

– Construções civis e obras em geral em sítios arqueológicos;

– Pichações em cavernas e monumentos;

– Venda ilegal de fragmentos e artefatos arqueológicos e fósseis;

– Artefatos arqueológicos e fósseis arrancados para souvenir;

– Fogueiras em ambientes de preservação;

– Acampamentos irregulares;

– Vandalismo e depredação;

– Descarte indevido de lixo.

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Capa do livro O patrimônio arqueológico da região de Matozinhos: conhecer para proteger. Acervo da EBA-UFMG. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

Uma fundamental referência bibliográfica é O patrimônio arqueológico da região de Matozinhos: conhecer para proteger. Foi escrito por André Prous, Alenice Baeta e Ezio Rubbioli. Segue abaixo a introdução, por Augusto Auler, PhD do Instituto de Geociências da UFMG:

Em 1836, por muitas vezes o dinamarquês Peter Lund caminhou pelas campinas que bordejam ó maciço calcário de Cerca Grande, por ele descrito como as “ruínas de um palácio de gigantes”. Neste cenário que tanto evoca a pre-historia, Lund descreveu para o mundo, pela primeira vez, a existência de arte rupestre na região de Lagoa Santa. Na ocasião, o desenhista e auxiliar de Lund, o norueguês Peter Andreas Brandt nos legou uma imagem das pinturas em uma singela aquarela.

Quase 150 anos foram necessários para que as pesquisas arqueológicas em Lagoa Santa adquirissem um caráter permanente, com o estabelecimento da Missão Arqueológica Francesa de Minas Gerais. O impulso gerado pelo trabalho continuo e sistemático de André Prous e sua numerosa equipe de colaboradores, atual e passada, permitiu que melhor entendêssemos quem foram e como viveram os primeiros brasileiros que aqui se estabeleceram a alguns milhares de anos.

Hoje, ao percorrermos o berço da pré-história brasileira, os ecos de nossos antepassados são abafados por sirenes e sons de um Brasil moderno, difusos em meio a névoa de cimenteiras e sufocados pela balbúrdia humana da expansão urbana sobre uma região antes bucólica, porém englobada cada vez mais pelos tentáculos de Belo Horizonte.

As pinturas ainda lá estão, em alcovas sombreadas de paredões rochosos, tímidas e tênues, como que pedindo proteção, tentando se fazer entender. Esperando que um arqueólogo as descubra antes que sejam profanadas pelo grafite rude de pretensos artistas modernos. Este livro não só vem resgatar um pouco de uma história de milhares de anos, como também testemunha o notável trabalho dos autores e suas equipes, que reconstruíram, a partir de fragmentos retirados da terra de abrigos e cavernas, a historia de uma Lagoa Santa que não existe mais. Que esta obra nos ensine a voltar os olhos para o passado antes de decidir o nosso futuro e que sirva como um resgate de um patrimônio tão importante quanto desconhecido.

Augusto Auler PhD. Instituto de Geociências, Universidade Federal de Minas Gerais.

No blog O melhor de Lagoa Santa, encontrei uma bela carta de Carlos Dummond de Andrade, sobre os perigos que rondam a preservação do patrimônio natural, artístico e científico da região. Segundo o blog[1]:

Lagoa Santa foi inspiração pra mais um modernista brasileiro, o mineiro Carlos Drummond de Andrade. Com sua lucidez e sensiblidade ele ja sabia da exploração do Carste de Lagoa Santa virando cimento para o Brasil, lá na década de 70, e assim resolveu escrever sua crítica numa carta ao Dr. Lund, em seu repouso:

Cuidado, Dr. Peter Wilhelm Lund, que dorme em seu último sono em Lagoa Santa: previno-lhe que seu repouso eterno corre perigo. A região em que o senhor viveu, pesquisou e estabeleceu os fundamentos da Paleontologia Brasileira está sendo varrida pelo ciclone do desenvolvimento-acima-de-tudo, que promete acabar com as suas grutas, os seus fósseis e toda a pré-história nacional. A exploração de calcário para fabrico de cimento vai arrasar as maravilhosas formações naturais que compuseram o cenário definitivo de sua vida. Amanhã, quem sabe? Esgotados os depósitos de matéria-prima, o senhor mesmo será tecnicamente classificado como calcário de 2º grau, e do seu jazigo inscrito nos livros do Patrimônio Histórico do Brasil se fará uma fornada de cimento para novas torres redondas na Barra da Tijuca.

De resto, sei que não adianta meu aviso, sei que não adianta impedir a transformação da paisagem em cimento. Temos que viver o nosso tempo, ou, mais corretamente, morrer o nosso tempo. Quem falou aí em preservar os traços deixados pelo homem primitivo, como tarefa de sumo interesse para a compreensão da vida? Esse perdeu o seu latim – o mesmo latim de que o senhor se serviu para identificar o seu megatherium, o seu chlamidotherium, o seu glyptodon. Pois o próprio latim não acabou, no quadro da cultura geral?

Desculpe, meu sábio venerando, este chamado importuno, que nem sequer deve tê-lo acordado. Certamente já o acordara antes o tonitrom dos tratores incumbidos de devastar o solo, a vegetação e toda lembrança do mundo imemorado. A esse som nada musical sucederá outro, que o manterá desperto: o das britadeiras funcionando em ritmo de Brasil grande e apressado. O senhor perdeu o direito à paz, como de resto nós todos o perdemos, e as próprias máquinas. Fique aí quietinho em seu túmulo, enquanto se anuncia para meados de 1975 o desaparecimento da Lapa Vermelha, ou Lapinha, que era a menina-dos-seus-olhos… A Lapinha, sabe? Que vinha sofrendo a agressão dos namorados, dos torcedores de futebol, dos fotógrafos de Manchete, que nela rabiscavam inscrições bobas ou que revestiam de óleo suas pinturas, para melhor efeito de cores das reproduções, enquanto os afeitos a souvenirs furtavam lascas de estalactites e estalagmites, para se gabarem de ser proprietários de esculturas da natureza. Esse pessoal executou os serviços preliminares de desbastamento da área. Vem agora a fase sistemática de desintegração plena da Lapinha, aquela mesma em cujo recinto sombrio e rico de mistérios telúricos o senhor passeou e meditou, no itinerário do sonho para a ciência.

Prometo versejar uma elegia, quando tudo estiver consumado. É só o que posso fazer, em honra da caverna clássica e do sábio que a indicou ao zelo das novas gerações, cuidando que, no futuro, suas investigações teriam prosseguimento, e que ali se instalaria um mutirão de pesquisadores ávidos de descobrir os enigmas da Terra e do Homem. Daqui a seis anos, sabe? Passará o centenário da morte do senhor. Podemos conjeturar que até lá sua morte se desdobrará e multiplicará na morte das grutas. Então, na rasa planície, extinto o eco dos tratores, britadeiras e esteiras transportadoras de calcário, memória não haverá nem do senhor nem dos grupos alegres de turistas que começaram a demolir as criações da natureza para que outros completassem a obra. É possível que, no silêncio, ouvido mais apurado ouça aquela música sem som que se filtra entre o vazio e a ruína, a música do nada. Teremos chegado à perfeição do não-existente, àquele estado de não-ser, que até a morte se distancia. E nessa música irreal se perceberá a vaga exalação de um responso: Minas Gerais vendeu sua alma ao desenvolvimento, e deu de pinga sua pré-história.

Boa-noite, Dr. Lund.”

Carlos Drummond de Andrade (12/03/1974)

 

[1] Fonte: IN-SITU (Informativo do Centro de Arqueologia Annette Laming Emperaire – Nov/2011). Disponível em: http://melhordelagoasanta.wordpress.com/tag/drummond. Acesso em: 12 out. 2012.

 

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